7 de novembro de 2015

A gratidão do velho Jacó

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José, filho de Raquel, era o preferido de Jacó. Por ciúme e inveja os irmãos o venderam e fizeram o pai acreditar que ele havia morrido. Um sofrimento muito grande: “Todos os seus filhos e filhas se achegaram para oferecer-lhe consolo, contudo ele recusou toda e qualquer consolação, e declarou: ‘Não! É em luto que descerei ao Sheol para me encontrar com meu filho!” (Gn 37.35).

Raquel, a amada de Jacó, morreu no parto de Benjamin. Por isso, quando o Governador do Egito (José) prendeu Simeão até que lhe trouxessem o irmão caçula, Jacó escolheu Benjamin. Nem Ruben fez o pai mudar de ideia. “Podes tirar a vida de meus dois filhos se eu não o trouxer de volta.” (Gn 42.37). Jacó morreria de tristeza se algo acontecesse a Benjamin e todos sabiam disso: “O menino não pode se ausentar de seu pai; se ele deixar seu pai, este morrerá de desgosto” (Gn 44.22), disse Judá ao Governador do Egito.

Mas uma notícia o reanimou. “Basta! José, meu amado filho, ainda está vivo! Que eu vá imediatamente vê-lo antes de morrer!” (Gn 45.28). Quando Jacó chegou ao Egito e José viu seu pai “correu para abraçá-lo e, abraçando-o com grande emoção, chorou longamente.” (Gn 46.29).

Com frequência, a história de José é lembrada por seu perdão aos seus irmãos, pelo modo como Deus o usou para salvar toda a terra e a própria descendência, e por sua integridade diante de todas as injustiças e tentações que sofrera. No entanto, a perspectiva de Israel (Jacó) não é menos comovente.
O homem que, à beira da morte, revive ao saber que José vivia, se declara feliz pelo simples fato de rever seu filho. “Agora, pois, já posso morrer em paz, porquanto vi o teu rosto e sei que ainda estás vivo!” (Gn 46.30). Mas Jacó também precisou fazer escolhas. Viver a amargura e o rancor pelos anos de separação de José ou viver intensamente a alegria de tê-lo ao seu lado. Viver em atrito com seus filhos por tudo que eles lhe fizeram ou viver em paz com todos e em família.

Jacó morreu feliz porque escolheu deixar no passado toda dor que sofrera e, olhando para o presente com alegria, viveu o futuro com esperança. Se o valor de uma história está no modo como ela termina, a história de Jacó termina com um coração cheio de gratidão ao Senhor. “A mim, que não tinha mais a esperança de rever teu rosto, eis que Deus me concede a bênção de ver até teus descendentes!” (Gn 48.11).

Tão comovente como a história de José é perceber a gratidão do velho Jacó.

O Cristianismo da pureza

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A vida é tão curta e nós tão frágeis. Deveríamos aproveita-la mais nos ocupando das coisas realmente importantes.  Via de regra o cristão deveria ser feliz. Feliz porque tem uma nova vida a qual nunca se acaba. Uma vida que começa aqui e vai à eternidade. Contudo, como ser feliz neste mundo? Ou melhor, como ser um cristão puro diante de um mundo contaminado? Como ser puro diante de igrejas que se deixam contaminar pelos valores mundo?

Pureza, simplicidade e humildade. “Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele”. (Marcos 10.15).

O Cristianismo puro é simples como é um menino. O cristianismo puro/autêntico é vivido por um coração puro. O Cristianismo puro/verdadeiro é vivido com humildade. Afinal, quantos têm condições de perceber as malícias e artimanhas deste mundo? Quantos percebem a volúpia dos corações de seus líderes? Isso pouco importa! Se o homem pode fazer bem e não faz, peca. Contudo, o cristão humilde sabe discernir uma coisa da outra pela razão? Só pelo Espírito.

É o Senhor quem dá dons a quem Ele quer. Ai daqueles que têm o dom de governo e não governam. Ai daqueles que têm o dom de pastoreio e são mercenários. Ai dos que têm o dom de mestre e não ensinam. Cada dará conta de si e estes darão conta também dos que lhe foram confiados. “E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. (Lucas 12.4b).

É preciso ser como um menino para viver o Evangelho de Cristo. É preciso depender como um menino, orar e chorar como um menino. É preciso ter a pureza, a franqueza, a alegria e a simplicidade de um menino. Por isso, não importa ao cristão puro/íntegro os desvios dos outros. O que importa é guardar o seu coração reto diante do Senhor! Simplicidade, é isso que Ele nos pede. “E que é o que o SENHOR pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia e andes humildemente com o teu Deus?” (Miquéias 6.8c).

Talvez alguém pergunte: - E as agruras da vida? O que fazer num mundo mal e violento? Respondendo com outra pergunta: o que fazer? Matar, morrer? Não, viver!

Portanto, viva e deixe viver! A vida é dura e também bela.
Viver uma vida justa, simples e humilde diante de Deus. Essa é a teologia de Jesus, este é o cristianismo puro que Ele nos ensinou. As demais coisas são importantes (os desvios de pessoas mal intencionadas), mas não são as essenciais.

6 de novembro de 2015

Dia (Inter)Nacional do idoso

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27 de setembro ou 1 de outubro?

A história do dia Internacional do idoso começou em 1982 com o Plano Internacional de Ação sobre o Envelhecimento em Viena, Áustria. Aprovado pela Assembleia Mundial do Envelhecimento e, no mesmo ano, pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), o Plano foi o primeiro instrumento internacional sobre o envelhecimento, e forneceu uma base para a formulação de políticas e programas sobre envelhecimento. Ele incluía sessenta e duas recomendações para a pesquisa-ação de endereçamento, coleta de dados e análise, treinamento e educação, bem como as seguintes áreas setoriais: saúde e nutrição, proteção dos consumidores idosos, habitação e meio ambiente, família, assistência social, segurança de renda e de emprego, e educação.

No dia 14 de dezembro de 1990 a Assembleia Geral da ONU, por meio da resolução 45/106, determinou o dia 1º de outubro como Dia Internacional do Idoso. Na Assembleia seguinte (1991), a ONU aprovou a resolução 46/91 que trata dos direitos dos idosos, cujos princípios norteiam as discussões contemporâneas sobre a situação do idoso. Entre esses princípios, estão os da “autorrealização” e da “dignidade”.

No Brasil, a Comissão de Educação do Senado Federal aprovou a emenda ao Projeto de lei 513/1999 estabelecendo o dia 27 de setembro como Dia Nacional do Idoso, dia de São Vicente de Paula, considerado o pai da caridade. Até 2006, o Dia do Idoso era celebrado no dia 27, mesmo dia em que as religiões afro-brasileiras comemoram o dia de Cosme e Damião. – No catolicismo comemora-se no dia 26.

O Plano Internacional de Ação sobre o Envelhecimento de Madri, Espanha, e a Declaração Política aprovada na Segunda Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento em abril de 2002, marcam um momento decisivo na forma como o mundo abordaria o desafio-chave da "construção de uma sociedade para todas as idades". O Plano de Ação traz uma nova agenda ousada para lidar com a questão do envelhecimento no século XXI. Ele se concentra em três áreas prioritárias: as pessoas idosas e seu desenvolvimento; a promoção da saúde e bem-estar na velhice; e assegurar ambientes propícios e favoráveis. É um recurso para a formulação de políticas, sugerindo formas de governos, organizações não governamentais e outras entidades, no sentido de reorientar as maneiras pelas quais suas sociedades percebem, interagem e cuidam de seus cidadãos mais idosos. Além disso, o Plano representa a primeira vez em que Governos concordaram em vincular questões do envelhecimento com outras estruturas de desenvolvimento social e econômico e dos direitos humanos.

No dia 1º de outubro de 2003 foi aprovada a Lei nº 10.741, que tornou vigente o Estatuto do Idoso no país. Com a criação do Estatuto, o Brasil começou a incorporar à sua jurisprudência resoluções de organizações internacionais, como a ONU e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Finalmente, em 28 de dezembro de 2006, entrou em vigor a Lei Federal nº 11.433/06 que dispõe sobre o Dia do Nacional Idoso a ser comemorado no dia 1º de outubro, juntamente com o Dia Internacional do Idoso.

Para este 25º Dia Internacional do Idoso, a ONU tem como tema: "Sustentabilidade e inclusão do idoso no ambiente urbano" – sublinhando a necessidade de tornar as cidades inclusivas para pessoas de todas as idades.

Portanto, tão importante quanto conhecer a história do dia Nacional ou Internacional do idoso é conhecer o Estatuto e participar dos Fóruns, Congressos e Simpósios, como, por exemplo, o II Simpósio do Envelhecimento promovido pela prefeitura do Rio.

Feliz dia do Idoso!

Bereanos ou baderneiros?

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Cena 1: Atos 17.1-9

Ao chegarem a Tessalônica Paulo e Silas fazem o habitual, vão à sinagoga. Por três sábados Paulo explica e comprova: “Este Jesus que vos anuncio é o Messias!” (v. 3)

Resultado 1: “alguns dos judeus foram convencidos e se uniram a Paulo e Silas, bem como uma multidão de gregos obedientes a Deus e diversas senhoras da alta sociedade local.” (v. 4)

Resultado 2: Com “forte inveja” os líderes judeus reuniram homens perversos dentre os desocupados para causar um tumulto na cidade, e ainda, acusaram Paulo e Silas diante dos governantes: “Estes que têm causado alvoroço em todo o mundo, agora chegaram também aqui.” (v. 6)

Cena 2: Atos 17.10-16

Paulo e Silas vão para Berea e fazem a mesma coisa, vão à sinagoga anunciar o Messias.

Resultado 1: Os bereanos dedicaram-se a estudar a Escritura para verificar se o que Paulo dizia “correspondia à verdade.” (v. 11)

Resultado 2: Muitos judeus, gregos e mulheres da alta sociedade creram em Jesus. (v. 12)

Resultado 3: Os líderes judeus de Tessalônica foram imediatamente à Berea, cerca de 102km de distância por rodovia, para causar confusão na cidade. (v. 13)

Por um lado, é fácil entender a narrativa, por outro, alguns elementos ajudam na compreensão do significado mais profundo do texto. Vide vocabulário abaixo.


Baderneiros

A inveja nunca dá bons frutos.

1) Rejeição. Paulo provou pela Escritura a verdade sobre o Messias. Diante dela, uns aceitaram, outros rejeitaram. Paulo esteve com eles por três sábados, tempo suficiente para que a Escritura fosse examinada e, se estivesse errada, fosse contestada. Eles sabiam que não estava porque Paulo provou, pela Escritura, que Jesus era o Messias. Portanto, aqueles líderes rejeitaram a Escritura, a Verdade e o Messias, e não a Paulo e Silas.

2) Perseguição. Não podendo refutar a Escritura, decidiram perseguir seus pregadores, Paulo e Silas. Talvez seja essa uma das tantas perseguições que Paulo fala em 2Co 11.

3) Abuso. Usando de uma autoridade que tinham (religiosa) invadiram a casa de Jasom com uma autoridade que não tinham (policial). (v. 5)

4) Insanidade. A palavra inveja, no original, é “forte inveja”. Tal sentimento levou os líderes da religião judaica (a religião de Deus) a se associarem com as piores pessoas da cidade, por mais incrível que isso possa parecer. Uma associação impensável: Juntar religiosos com maus-caracteres. Naquela época muitas pessoas trabalhavam por um salário diário (os diaristas dos nossos dias). Mas os religiosos contrataram justamente aqueles que estariam dispostos a fazer um “trabalho sujo”.

5) Mentira. Os defensores da verdade divina descumpriram o mandamento de Deus: “Não darás falso testemunho contra o teu próximo.” (Êx 20.16) Mentiram intencionalmente acerca de Paulo e Silas aos magistrados romanos. Também na condenação de Jesus, um grupo de líderes religiosos mentiu acusando Jesus perante Pilatos, o governador da Judéia: “Encontramos este homem subvertendo a nossa nação. Inclusive, proibindo o pagamento de impostos a César e se dizendo o Messias, o Rei!” (Lc 23.2)

6) Covardia. Fraudulentamente colocaram pessoas simples (os servos de Deus) contra as autoridades do governo romano: “eles estão agindo contra os decretos de César, proclamando que existe um outro rei, chamado Jesus!” Assim como a atitude de Pilatos foi de tentar libertar Jesus, em Lucas 23, a atitude dos magistrados (não crentes) foi favorável aos inocentes: “libertaram Jasom e os demais irmãos ... ” (v. 9a)

7) Prejuízo ao reino de Deus. A justiça feita a Jasom teve um preço. Eles foram libertos “ ...  após o pagamento da fiança estipulada.”  (v. 9b)


Bereanos

Com frequência ouvimos a expressão, sou bereano! Bereano tornou-se um adjetivo, um sinônimo de virtude atribuída ao cristão atento à leitura da Bíblia. Ou seja, aquele que sempre investiga se o que está sendo exposto está de acordo com a Escritura.

Em primeiro lugar, ser leitor atento da Bíblia é de fato uma virtude, – quanto mais nestes tempos em que ela é mal lida ou negligenciada –, no entanto, Tiago vai além: “Sede praticantes da Palavra e não simplesmente ouvintes, iludindo a vós mesmos.” (Tg 1.22) Ler a Bíblia não é a maior das virtudes e conhecê-la também não, principalmente se considerarmos que o Diabo usou a Escritura para tentar o Filho de Deus.

Em segundo lugar, os líderes de Tessalônica, perseguidores de Paulo e Silas, examinavam atentamente a Escritura. Eles eram líderes da religião judaica e a ensinavam na sinagoga, onde haviam muitos prosélitos (os gregos). Tanto examinavam que não puderam confrontar Paulo. A Escritura era de conhecimento de todos, por isso várias pessoas foram convencidas, pela Palavra, que Jesus era o Messias. Portanto, não havia falta de conhecimento ou exame das Escrituras em nenhuma das duas cidades.

Em terceiro lugar, os bereanos não eram deslumbrados com a eloquência de Paulo (como também não o foram os de Tessalônica). A mensagem recebida no sábado foi “ruminada” todos os dias da semana: “dedicaram-se ao estudo diário das Escrituras”.
Por último, eles avaliaram se tudo era mesmo verdade (assim como fizeram os moradores de Tessalônica).

Logo, a virtude dos moradores de Berea consistia em sua mente “mais nobre”. Havia genuíno interesse pela Palavra de Deus a qual recebiam com “vívido interesse”. Ora, só se interessa por algo quem está, de algum modo, comprometido com esse “algo”. Os bereanos queriam conhecer a Escritura para viver segundo Ela e não apenas saber por saber, muito menos intentaram rejeitar a Verdade da Escritura. Por isso, a reação dos homens de Berea foi oposta a dos líderes da cidade vizinha.

Por um lado, examinavam atentamente o que era pregado para não serem levados por qualquer vento de doutrina. Por outro, estavam dispostos a abrir mão da tradição, dos conceitos e pré-conceitos religiosos, e, de toda e qualquer liderança que tivessem em prol da Verdade da Escritura. Para aqueles homens não importava se quem estava pregando era o rabino mais sábio de Jerusalém, o apóstolo Paulo ou qualquer iletrado. Se a Verdade os confrontasse mudariam de procedimento submetendo-se a Palavra de Deus. Nisso consistia a nobreza dos cristãos de Berea. Para os homens da cidade de Berea a Escritura era “a suprema regra de fé e prática”.

Mas a inveja é incansável em fazer o mal. Como os bereanos não se opuseram a verdade apresentada por Paulo e Silas, os religiosos tomaram uma atitude: “.. quando os líderes judeus de Tessalônica tomaram conhecimento que Paulo estava ensinando a Palavra de Deus em Berea, rumaram imediatamente para lá, agitando e instigando a população.” (v. 13)

Definitivamente a inveja é destrutiva em todos os sentidos.


Nos dois casos, Paulo não refutou, reagiu ou defendeu-se das acusações mentirosas. Ao ser perseguido, não criou confusão nas cidades onde passou, antes partiu para outro lugar e continuou anunciando que Jesus é o Messias. E, para isso, usava tão somente a Escritura. Sola scriptura.

Conclusões

Diante da Verdade ninguém fica imparcial. Ou rejeita ou aceita. Quem não se submete a Escritura a persegue, se rebela e nega a soberania do Senhor sobre a sua vida.

Conhecer a Escritura não torna ninguém melhor. Dependendo da intenção do coração pode, até, levar a práticas ruins e impensáveis.

A Verdade sempre é bíblica. Anunciar o Evangelho nunca pode prescindir da Escritura. Assim faziam Paulo e Silas.

Ser cristão não é e nunca foi sinônimo de “alvoroçador” (arruaceiro, baderneiro). Embora na língua portuguesa alvoroço possa assumir um valor positivo, e até de virtude, o texto de Atos 17, não confirma isso.

O cristão chamado bereano examina atentamente a Palavra com coração nobre, ou seja, disposto a moldar a sua vida a vontade do Senhor Jesus. Por isso, tem compromisso com a Escritura a fim de conhecer o propósito de Deus para sua vida.

Finalmente, o que se chama bereano, deve ser um leitor atento da Escritura para não ser levado por um discurso bem elaborado, de quem quer que seja, e acabar fazendo ou repetindo o que não agrada a Deus e não é bíblico.

Bereano, sim, baderneiro, nunca!



Vocabulário.

1 – Desocupados (agoraio). a) mascates, pequenos comerciante, distribuidores varejistas; b) vadios, ociosos, o povo simples, humilde, povo pobre.

2 – Perversos (poneros). Mau, de natureza ou condição má. a) num sentido físico: doença ou cegueira; b) num sentido ético: mau, ruim, iníquo.

3 – Alvoroçar (anastatoo). Agitar, excitar, perturbar. a) incitar tumultos e sedições no estado; b) inquietar ou perturbar pela disseminação de erros religiosos.

4 – Nobre (eugenes). 1) bem nascido, de família nobre; 2) de mente nobre.

Texto em homenagem a todos os bereanos submissos a Escritura e dedicados ao estudo “com o propósito de avaliar se tudo correspondia à verdade.”

Referência bíblica: BJK


5 de novembro de 2015

A força do querer

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Por Anna Veronica Mautner

“Velhice e fim têm coisas parecidas e coisas diferentes, mas o fim que eu promovo não é igual ao fim que ocorre fora da minha vontade”


Parar de querer pode ser visto como um aspecto de parar de ter curiosidade. É como se não se quisesse conhecer nada mais do que já se conhece. Parar de querer não é uma ruptura, é um definhar não só da curiosidade, mas – bem pior do que isso – da vontade.

Não se trata do que eu posso ou não posso fazer ou promover. É muito diferente de não poder. Quando paramos de querer nos aproximamos da desesperança, do vazio. É quando não vemos nada à frente, no futuro próximo. Eis que surge o espaço para uma pergunta grave: então, viver para quê?
O parar de querer pode vir com a idade, mas não é obrigatório. Há muitos idosos que não conseguem mais andar, mas continuam interessados no que o amanhã lhes trará.

E tem mais: o definhar da curiosidade não é igual à depressão. Nesta não se dá valor para o que pode vir de fora, o que é muito diferente de não querer saber se há alguma coisa fora do "aqui agora".
Reparem que as senhoras idosas nunca ou raramente pedem receitas novas de comida. É desse jeito que o idoso vai se separando do mundo: deixando a curiosidade definhar. Que importa o amanhã se nem hoje quero algo novo?

Velhice e fim têm coisas parecidas e coisas diferentes. O fim imbuído do "não quero saber" é bem diferente daquilo que acaba independente da vontade e do qual eu posso vir até a sentir falta, se for o caso. O fim que eu promovo não é igual ao fim que ocorre fora da minha vontade, sem minha participação.

O avançar da idade aproxima a pessoa de um tipo de fim diferente do que vivencia o jovem nas várias etapas da sua vida. Deixar para trás a boneca, o carrinho, o jogo de panelinhas, é diferente de não conseguir mais se equilibrar no salto alto ou levantar peso.

O idoso não para de fazer coisas; ele deixa de fazer de uma vez por todas. Não quer mais saber, desinteressa-se. Afasta-se sem dor. Quando o desinteresse aterrissa na nossa vida tudo se torna monótono porque nada de novo entusiasma.

Existe o fim e o ir acabando. Existe o não conseguir mais e existe também o não querer mais. São momentos diferentes da vida da gente. Quando começa a predominar o "para quê?" estamos chegando a um momento grave.

O par de olhos que não procura mais o novo no horizonte pertence a alguém que não se surpreende mais. Não se surpreender traduz uma indiferença que torna o cotidiano difícil de ser tolerado. Tudo fica entediante. Cá entre nós, a surpresa é, na verdade, a alma do negócio de viver bem.

Esperar, aguardar, sonhar, imaginar muitos "depois" preenche a consciência de todos os seres humanos indistintamente, não importa a época, a idade, a origem, a raça, o gênero. Imagino que o homem das cavernas ansiava pela chuva da mesma forma que o jogador na mesa de roleta torce para sair o número que escolheu. Também os pais esperam ansiosos pelo nascimento de cada filho, não só o primeiro.

Cada um é uma nova surpresa. Sem falar da espera pelo prazer fugaz, porém não menos desfrutável, do cheiro de bolo fresco recém-saído do forno ou do pastel de palmito que está sendo frito na frigideira.

Parar de esperar é o começo do fim. Nós todos gostamos de correr atrás de uma cenoura. É a cenoura nossa de cada dia que nos move.

Anna Mautner é psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e autora de Cotidiano nas Entrelinhas: Ed. Ágora

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/05/1627701-anna-veronica-mautner-a-forca-do-querer.shtml

4 de novembro de 2015

Nova geração de discípulos

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"A questão é: em 10 anos, você terá feito a diferença?"

O dia dos avós é muito mais do que isso

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"A tigela de madeira" conta a história de um garoto que aprende como tratar seus pais quando eles ficarem velhos, isto é, do mesmo modo que eles tratavam o seu avô: "estou fabricando uma pequena tigela para você e a mamãe comerem sua comida quando eu crescer". Infelizmente, isso está longe de ser apenas uma história.

"Por um instante observo um casal com seus filhos e uma senhora idosa perambulando pelo supermercado. As crianças, com 5 e 7 anos de idade aproximadamente, brincam com um saco plástico ao mesmo tempo que seguem os pais. O entra e sai nervoso dos corredores e os olhares do casal não escondem o desagrado em acompanhar essa senhora cansada pelo peso da idade. Ela parece confusa diante de tanta gente com pressa, falando alto, e tantas gôndolas com promoções. .... em voz alta o homem diz àquela senhora: ‘Já não basta pagar as compras, eu ainda tenho que ficar acompanhando a senhora de um lado para o outro que nem barata tonta. Afinal, eu não tenho tanto tempo assim. Tudo isso porque esqueceu a lista de novo?’ A senhora responde: ‘Desculpa, meu filho, eu te amo. Não queria estragar o seu sábado.'"*

Dia 27 de julho, dia dos avós, é mais do que um dia para celebrar. É um dia para refletir. Recentes pesquisas afirmam que a partir de 2030 nossa população começa a diminuir e que em 2050 as pessoas com mais de 60 anos representará um terço dos brasileiros.

Ora, os avós de hoje estão longe de serem pessoas de cabelos brancos sentados em cadeiras de balanço na varanda. Entretanto, não há como negar o quanto os valores de nossa sociedade estão distantes daqueles quando essa eram as imagem da figura dos avós. O dia dos avós é mais do que saudosismo, é resgate. Resgate dos valores da família com pai, mãe, filhos e avós. Valores do "respeito aos mais velhos", do ceder o lugar no ônibus para um idoso antes de haver leis e bancos preferenciais para eles.

Celebrar o dia dos avós é mais do que olhar o passado, é construir o futuro, mesmo que seja por uma razão meio egoísta: "respeitar as pessoas idosas é tratar o próprio futuro com respeito". Respeito que começa na infância, no modo como tratamos nossos pais a vistas dos filhos, no nosso proceder diário nos supermercados da vida, na forma como lembramos das datas importantes, como o dia dos avós, por exemplo.

Sem o dia 15 de junho, Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, dificilmente saberíamos que "cerca de 10% dos idosos brasileiros morrem por homicídio" vítimas de violência visível e invisível. Sem o dia 23 do mesmo mês, Dia Mundial de Prevenção de Quedas, talvez esse assunto tão importante sequer fosse abordado. Por isso, celebrar o dia 26 de julho é tão importante. É construir na mente dos pequeninos, os netos, o valor de tê-los, os avós, no seio da família no modelo proposto por Deus. É perpetuar valores de respeito e dignidade tão raros em nossa sociedade. E, por último, é olhar para si mesmo com respeito. Porque se a estatística estiver correta a aritmética não deixa dúvida. No último censo (2010) as pessoas com mais de 60 anos somavam 23 milhões de brasileiros (12%). Em 2050 os netos de hoje serão os adultos e nós, os adultos, faremos parte dos cerca de 63 milhões de brasileiros acima dos 60 anos (33%). E aí, não vai adiantar olhar para traz ou reclamar. "Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará." (Gl 6.7)

Portanto, celebre esse dia em família, celebre com alegria, celebre dando honra a quem tem honra. Porque o dia dos avós é muito mais do que isso. – Leonardo Martins.

*Hercules e Nirvana Garcia – Professores na classe de Casais. Pensar nº 8: junho/2014 (pg. 04)

2 de novembro de 2015

A Reforma Protestante e o espírito dos batistas brasileiros

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Introdução

Martin Lutero foi um monge agostiniano empenhado em agradar a Deus com todas as suas forças, a ponto de ter sua saúde afetada por causa das longas privações e penitências praticadas no mais severo mosteiro da época, o qual escolheu para preparar-se para o sacerdócio. “Eu me torturava até a morte para conseguir a paz com Deus”. Apesar disso, Lutero não conseguia a paz tão desejada e concluiu: “Deus é mau em si, é preciso atribuir a diabolicidade a Deus.”

A interpretação da Escritura, segundo a igreja, asseverava as boas obras como o modo pelo qual o homem deve agradar a Deus. Dado que o homem é imperfeito, era impossível que qualquer ação humana merecesse o favor e a graça divina. Por isso, a resposta à pergunta, como sei se fiz o bastante? era: “Faça ainda mais”.

Como professor de grego na Universidade de Wittenberg, Lutero encontrou a liberdade no texto da carta aos romanos. “Mas o justo viverá pela fé.” (Rm 1.17) Na interpretação da versão em latim, a língua oficial da igreja, entendia-se que se alguém quisesse viver (vida eterna com Deus) precisava demonstrar sua fé, sendo justo. Em outras palavras, fazendo boas obras. Mas, então, retoma-se a pergunta: “Como saber se fiz o bastante?”.

No texto grego, a língua original, Lutero encontra a real compreensão da mensagem paulina. Basta crer em Jesus como Senhor para ser justificado por Ele mesmo, porquanto não há nada que o homem possa fazer para ser salvo (viver). “Porque nele [Jesus] se descobre a justiça de Deus de fé em fé”.
Lutero passou a dedicar-se ao estudo das Escrituras nas suas línguas pátrias (grego e hebraico) confrontando os dogmas e interpretações da igreja. Uma tarefa nada fácil: “A paz, se possível, mas a verdade, a qualquer preço.” Finalmente, decidiu traduzir a Bíblia direto dos textos originais, contribuindo para criação daquela que se tornaria língua alemã.

Direto do coração da reforma

Os batistas brasileiros possuem normas básicas de fé e conduta, os chamados princípios batistas. – “Princípio. Aquilo que regula o comportamento ou a ação de alguém; preceito moral.” – Estes princípios possuem muitos paralelos com a Reforma Protestante.

A AUTORIDADE

Solus Christus

Para Lutero, somente Cristo é o mediador entre Deus e o homem. Isso contrariava completamente a doutrina da igreja Católica, a qual afirmava que somente nela existe salvação para o homem, por se considerar a única igreja verdadeira, sucessora de Jesus por meio do apóstolo Pedro, o primeiro Papa.
Cristo como Senhor
Para os batistas, “A fonte suprema da autoridade cristã é o Senhor Jesus Cristo. Sua soberania emana da eterna divindade e poder – como o unigênito filho do Deus Supremo”. Como Lutero, os batistas creem na divindade de Jesus por ser filho de Deus Pai. Autoridade que remete a sua obra salvífica: “sua redenção vicária e ressurreição vitoriosa.”

Sola scriptura

Uma vez que Jesus não está mais entre nós, é preciso conhecer a sua vontade. Então, Lutero afirma que somente a Escritura é a única palavra autorizada por Deus por ser divinamente inspirada, novamente, contrariando a doutrina da igreja: “tudo o que está relacionado com a maneira de interpretar as Escrituras está sujeito ao julgamento da Igreja”. Ele sabia que isso poderia custar a sua vida, assim como de tantos outros antes dele, no entanto, Lutero afirmou:

“A Menos que eu seja convencido pela evidência das Escrituras ou por plena razão, – já que eu não aceito a autoridade do papa ou dos concílios sozinha, visto que, está claro, que eles frequentemente erraram e se contradisseram –, eu estou preso pelas Escrituras e a minha consciência está cativa a Palavra de Deus. Eu não posso e não vou reconsiderar, porque não é seguro nem é certo agir contra a consciência. Que Deus me ajude, amém.”

As Escrituras

Para os batistas brasileiros “a Bíblia fala com autoridade porque é a palavra de Deus. É a suprema regra de fé e prática porque é testemunha fidedigna e inspirada dos atos maravilhosos de Deus.” Tal qual postulado por Lutero, o modo de pensar e agir do cristão está fundamentado na Bíblia e não em qualquer instituição ou pessoa, por mais justas e corretas que sejam. Por isso, o cristão batista “tem que aceitar a responsabilidade de estudar a Bíblia, com a mente aberta e com atitude reverente, procurando o significado de sua mensagem através de pesquisa e oração”.

A VIDA CRISTÃ

Sola gratia

Estudando os originais, Lutero entendeu corretamente o sentido da epístola de Tiago e percebeu que não havia qualquer contradição com Efésios ou Gálatas do apóstolo Paulo. Ele teve certeza de que somente a graça pode salvar o homem porque Deus é o autor dessa graça, sendo impossível ao ser humano fazer qualquer coisa para alcançá-la.

A salvação pela graça

Para os batistas “A graça é a provisão misericordiosa de Deus para a condição do homem perdido.” Como Lutero, os batistas rompem com duas ideias: 1) a de que o homem pode fazer algo que o faça merecedor da graça e; 2) a de que exista alguma autoridade espiritual terrena que possa conferir a graça ao pecador. “A salvação não é o resultado dos méritos humanos, antes emana de propósito e iniciativa divinos. Não vem através de mediação sacramental, nem de treinamento moral, mas como resultado da misericórdia e poder divinos.”

Sola fide

Se, por um lado, a salvação vem pela graça e isso não depende do homem, por outro, a graça não invade a pessoa sem que ela permita. Lutero, entendendo o texto da carta aos romanos, afirma que somente a fé no Sacrifício de Jesus, como àquele que pagou por nossos pecados, pode se apropriar dessa graça. Em outras palavras, aceitar que Deus nos aceita apesar de nossas mazelas. Aceitar é crer no sacrifício do seu filho, Jesus.

Nos princípios batistas este postulado encontra-se no mesmo item da graça. “A salvação do pecado é a dádiva de Deus através de Jesus Cristo, condicionada, apenas, pelo arrependimento em relação a Deus, pela fé em Jesus Cristo, e pela entrega incondicional a Ele como Senhor.”

Soli Deo gloria

Considerando a obra do Pai, pelo Filho e a ação do Espírito Santo para salvação do pecador, Lutero conclui que somente Deus é merecedor de toda glória, negando visceralmente com a tradição da igreja, seus líderes e seus antepassados, de merecerem qualquer glória, ainda que tenham morrido pelo Evangelho.

Nos princípios batistas não existe paralelo a esta sola de Lutero. A glória de Deus só é citada quando trata da mordomia cristã.

A NOSSA TAREFA CONTÍNUA

Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est

Finalmente, outros reformadores influenciaram os princípios batistas. Gisbertus Voetius postula que “A Igreja é reformada e está sempre se reformando.” Este conceito é muitas vezes mal compreendido.

“Só para ilustrar, ‘Sempre Reformanda’ é o nome de uma organização religiosa nos Estados Unidos, que defende a inclusão de gays e lésbicas no ministério pastoral e o casamento homossexual.”

O que Voetius propôs foi voltar a Escritura permitindo, assim, uma nova iluminação do texto bíblico. Ou seja, voltar a Escritura para que a igreja seja cada vez melhor.

A autocrítica

A herança de Voetius chega aos batistas como o último princípio da lista.  Este princípio preocupa-se em garantir que tudo o que é feito como denominação batista pode e deve ser avaliado e reavaliado, claro, à luz da Escritura.

“Tanto a igreja local quanto a denominação, a fim de permanecerem sadias e florescentes, têm que aceitar a responsabilidade da autocrítica. Seria prejudicial às igrejas e à denominação se fosse negado ao indivíduo o direito de discordar, ou se fossem considerados nossos métodos ou técnicas como finais ou perfeitos.”

Assim como Voetius percebeu, a igreja institucionalizada, tende, com o tempo, a se cristalizar ou dogmatizar. “O trabalho de nossas igrejas e de nossa denominação precisa de frequente avaliação, a fim de evitar a esterilidade do tradicionalismo.” Todo cristão batista deve contribuir para o “desenvolvimento à maturidade cristã, tanto para o indivíduo quanto para a denominação ... e  aceitar a responsabilidade da autocrítica construtiva.”

Conclusão

A Reforma Protestante deixou um grande legado para os batistas brasileiros. Conhecer os valores da Reforma e os princípios batistas, não significa fossilizar a igreja, mas, ao contrário, respirar o mais puro ar reformador do século XVI, percebendo pessoas que não aceitavam uma igreja que se fechava em dogmas e doutrinas, nem num clero sentado no trono de Deus como se de fato o fossem. As solas e princípios entregam na mão de cada cristão a responsabilidade por sua própria vida cristã, baseada na fé, na graça e na soberania de Jesus segundo a Palavra de Deus. A Reforma não se conforma, antes, questiona tudo a sua volta para o crescimento daquele que é chamado o corpo de Cristo.


Referências:

http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006_04_01_archive.html
http://www.mensagenscomamor.com/frases-de-famosos/frases_martinho_lutero.htm
http://comandodafe.blogspot.com/2015/08/martinho-lutero-15201750-o-anjo-da.html
http://www.igrejaapedraangular.com.br/estudos/Votos.pdf
http://www.apalavraoriginal.org.br/mensprof/1960-12-09.pdf http://www.luteranos.com.br/site/conteudo_organizacao/confessionalidade-luteranos-em-contexto/martim-lutero-palavras
http://www.batistas.com/index.php?option=com_content&view=article&id=16&Itemid=16&showall=1
http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_I__1996__2/lutero_ainda.....pdf
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