6 de novembro de 2017

Ser igreja é assumir um duplo comprometimento

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A amizade de Jesus e Pedro

Pedro foi um discípulo de Jesus reconhecido por sua impulsividade.  Com frequência tomava a iniciativa ao falar ou agir diante das situações que se apresentavam. Essa característica de um líder nato lhe trazia, às vezes, méritos outras vezes, problemas. Apesar disso, Pedro era alguém em quem Jesus confiava. Junto com Tiago e João, ele viveu experiências únicas com Jesus. O Mestre sabia que podia contar com seus discípulos e amigos mais chegados.

A precipitação de Pedro

Certa vez Pedro (Mateus 17.24-27) precipitou-se ao assumir um compromisso desnecessário em Cafarnaum. “O vosso mestre não paga o imposto das duas dracmas, ao templo?”, indagaram os coletores de impostos daquela cidade. “Sim, paga”, foi a resposta imediata do líder e impulsivo Pedro.

A lealdade de Pedro

Observando a trajetória do Apóstolo narrada nos Evangelhos é fácil perceber o quanto Pedro era comprometido com seus amigos e, sobretudo, com seu Mestre – mesmo em momentos de grandes erros. Por exemplo: Depois de Jesus anunciar a sua morte (Mateus 16.21-23) Pedro vai até ele em particular e diz: “Deus seja gracioso contigo, Senhor! De modo algum isso jamais te acontecerá”. Motivado pelo cuidado com o Mestre e querendo evitar seu sofrimento, Pedro acaba se colocando contra à vontade de Deus e é reprendido pó isso. “Para trás de mim, Satanás [adversário]! Tu és uma pedra de tropeço, uma cilada para mim, pois tua atitude não reflete a Deus, mas, sim, os homens”. (Grifo nosso) Mesmo aqui é possível perceber sua motivação, sua lealdade e seu comprometimento. É neste contexto que ele não aceita a afronta dos coletores: “vosso mestre não paga o imposto”?

A pedagogia de Jesus

Para a precipitação de Pedro a antecipação de Jesus. De modo pedagógico Jesus o faz refletir sobre a razão de se assumir um compromisso desnecessário. “De quem cobram os reis da terra impostos e tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. Ora, eles eram naturais daquela região, portanto não fazia sentido pagar impostos como se fossem estrangeiros. Em outros termos, o que Jesus faz Pedro perceber é que sempre pagaram impostos e tributos como moradores daquele lugar, desde os tempos em que trabalhavam com a pescaria, portanto este era um tributo para allotrion (ἀλλοτρίων: estrangeiros, estranhos, forasteiros).

A responsabilidade de Jesus com seus amigos

O senso diria que este seria o momento de fazer Pedro voltar e desfazer o compromisso desnecessário à luz da legalidade. Curiosamente não é isso que Jesus faz. Ao invés de tomar uma posição comodamente política (não sei de nada, não assinei nada, não empenhei minha palavra nisso), Jesus assume o compromisso com seu amigo. A questão é que atitude afoita de Pedro não introduzia algo indigno, imoral, antitético ou ilegal a coletividade ou a Jesus em particular. Ele apenas cometera um excesso e não um erro. E, o fez, porque estava profundamente comprometido com seu grupo e, sobretudo com seu Mestre. Por isso a recíproca de Jesus foi além do esperado.
“Entretanto, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Retira aquela moeda e entregue a eles para pagar o meu imposto e o teu também.”

Para não causar skandalisomen (σκανδαλίσωμεν: vegonha, escândalo, ser motivo de tropeço e queda de alguém) Jesus assume a responsabilidade por ele (que não provocou) e por Pedro (que se precipitou). O estáter (equivalente a quatro dracmas) era suficiente para pagar o imposto (indevido) de ambos: Duas dracmas para cada um.

Aprendizado

Esta história demonstra que Jesus não só assume o compromisso pessoal criado por Pedro “vosso mestre não paga o imposto”?, mas também se antecipa a outros questionamentos levando-o a pagar também o tributo. Esse texto mostra um duplo comprometimento. Primeiro, de Pedro com seu mestre e seus amigos, porquanto ele queria evitar o escândalo àqueles a quem amava e respeitava. Segundo, de Jesus com seu amigo e seu líder o qual, na lide e enfrentamento das situações da vida, se precipitou justamente por causa do seu profundo envolvimento. Ao perceber o quanto Pedro se sentia responsável e comprometido, Jesus toma para si a responsabilidade “para que não os escandalizemos” (nós não escandalizemos a eles).

Conclusão

Faz parte de ser igreja: 1) Observar a responsabilidade e o comprometimento; 2) avaliar a as atitudes: quando contrárias à leis (de homens ou de Deus), correção; 3) evitar o escândalos assumindo as responsabilidades mútuas, sem se esquivar, tergiversar ou acusar o outro por eventuais equívocos. Neste texto fica claro um comprometimento de mão dupla: tanto do líder e quanto do liderado. Um belo exemplo de cumplicidade sem a mácula do corporativismo.

14 de março de 2017

O caráter cristão em tempos de crise

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Vale a pena começar citando a sutil diferença entre os termos passivo e pacífico. Passivo é alguém alienado, pacífico é alguém não-violento. Mahatma Gandhi, Luther King, entre outros, jamais foram alheios aos problemas e as mazelas da sociedade do seu tempo (passivos). Tão pouco Jesus o foi. Todavia, nunca foram violentos (pacíficos).

Sobre caráter, alguém disse certa vez: “Existem três situações em que uma pessoa revela quem realmente ela é. Quando tem muito dinheiro e muito poder: porque não precisa prestar contas a ninguém do que faz ou pensa; quando não tem nada: porque aí se descobre se é ela realmente capaz de dividir o seu ‘nada’ com quem está em uma situação ainda pior; e quando está em um lugar onde ninguém a conhece: porque pode assumir a identidade que quiser e fazer o que bem entender sem nenhuma tipo de censura”: Três contextos onde o verdadeiro caráter de uma pessoa é revelado.

O Brasil passa por um momento muito difícil na sua história. Maior do que a crise política, econômica ou institucional brasileira é a crise moral. A igreja de Cristo já foi reduto de uma moral e de uma ética muito superiores aos modelos propostos pelas sociedades ou instituições, mas lamentavelmente ela também tem sido afetada pelas mesmas imoralidades e falta de ética presentes na contemporaneidade. Hoje, a cristandade não influencia mais a sociedade, mas é influenciada por ela por seus valores e contra valores. Onde a igreja se perdeu? Vários fatores contribuíram para tão grande desvio de conduta, mas certamente a falta de profundidade bíblica ocupa lugar de destaque na perda do caráter cristão. Vale observar que a crise da igreja brasileira não algo novo na história do cristianismo.

A “Europa” do fim do século XV e início do século XVI também tinha na Igreja-Estado seu reduto de moral e ética cristã. No entanto, seus valores estavam completamente deteriorados e absolutamente distantes do caráter de Cristo. Guerras, miséria, fome, grandes distorções sociais e um Estado autoritário apoiado pela igreja, colocavam em xeque o caráter cristão daqueles que falavam em nome de Deus e de um modo nunca visto antes na história. A exploração da fé foi a resposta encontrada pelo clero para manter seus privilégios. Construir a basílica de São Pedro foi a saída encontrada para superar a própria crise moral. O preço? Um sacrifício ainda maior de um povo sofrido e atemorizado pela religião que o emaçava com o inferno e o purgatório.

A Reforma Protestante foi uma reação quase “natural” a este estado de coisas. Para os reformadores a autoridade sobre a vida cristã não residia nos sacerdotes ou na tradição da igreja: “fundada por Pedro, sucessor de Jesus Cristo”. Para eles a autoridade cristã vinha da Bíblia (a Escritura). Foi neste contexto que nasceu a expressão de Sola Scriptura (só a Escritura). Para Lutero e os reformadores a Bíblia era o único parâmetro norteador do caráter e comportamento cristão porque, como afirmava: “os papas também erram”. Absolutamente convicto de seu postulado, ele só reconhecia dois modos de ser convencido acerca da fé e do caráter cristão: a razão ou a Escritura. No contexto Reforma, o comportamento que não fosse fundamentado na Bíblia não poderia ser considerado um comportamento cristão. Essa é a herança da chamada igreja evangélica que chegou até o Brasil.

Em meados dos anos de 1960 e 1970 os valores dos evangélicos brasileiros eram claramente reconhecidos. Essa minoria de cristãos era hostilizada, discriminada e até perseguida, no entanto seu caráter e sua postura ética eram inegáveis. Meio século depois o Brasil está totalmente diferente e, infelizmente, os chamados crentes também. Hoje, a Escritura não é mais o padrão de comportamento a ser seguido. Cristo, o fundador da igreja, não é mais o modelo a ser imitado. Suas palavras já não exercem autoridade sobre a vida dos crentes. Hoje, a igreja evangélica atende aos anseios de uma sociedade egoísta e hedonista. Neste sentido, ela tornou-se uma igreja de varejo onde cada grupo escolhe o que melhor lhe agrada. A proposta da Reforma não encontra eco no coração do crente contemporâneo e os valores distam, e muito, do ideal de seu fundador, o Cristo. Segundo a Escritura o cristão deveria manter-se integro é qualquer situação. Seja na maior riqueza, seja na mais absoluta pobreza, seja em algum lugar anônimo: como a Internet, por exemplo.

No atual contexto de violência, miséria e desigualdades vividos no Brasil, o comportamento cristão tem oscilado entre dois extremos: passividade ou violência. Mas Jesus, o Cristo, jamais foi violento, jamais promoveu a morte, jamais foi injusto, jamais usou seu poder em benefício próprio. Jesus, o Cristo, sempre fez aos outros aquilo gostaria que a ele fizessem, mesmo quando recebeu a injustiça e a calúnia como prêmio. Nascido no legalismo do “olho por olho e dente por dente”, Jesus, o Cristo, tornou-se um subversivo ao judaísmo que aprendeu na infância. Mais do que ensinar ele viveu situações como: “ofereça a outra face”, “bendiga os que lhe amaldiçoam”, “pague o mal com bem” etc. Foi principalmente sua vida exemplar que “contaminou” milhares de pessoas ao longo da história.

Mahatma Gandhi, um reconhecido pacifista hindu, tinha dois livros de cabeceira. A Canção Celestial (escritura hindu) e o “Sermão da Montanha” (Mateus 5-7). Certamente foi à luz do segundo que Gandhi desenvolver o conceito de luta pelo “princípio da não violência”. Os valores morais de justiça e liberdade aprendidos na Bíblia impulsionaram Martin Luther King Jr. a lutar por igualdade em seu país. Suas ações eficazes levaram a mudar a Constituição garantido os direitos civis para os negros estadunidenses. Nunca pelo ódio, nunca de modo violento a exemplo de seus antecessores, Gandhi e Jesus. Pacífico, mas não passivo. Madre Teresa de Calcutá doou toda sua vida em favor dos leprosos abandonados da Índia a partir dos ensinos de Jesus segundo Mateus 25 (o juízo do Filho do homem). À frase inquisidora de um homem muito rico: “eu não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares”, encontrou a inquietante resposta da Madre Tereza: “Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.  Esse tipo de motivação deveria calar fundo no coração do cristão autêntico. Esses são alguns exemplos de pessoas que jamais se conformaram a um mundo injusto é cruel sem, contudo, abandonar os princípios bíblicos em suas ações.

Certamente esses são tempos difíceis para igreja de Cristo. Tempo de grande apostasia e muito engano religioso. Tempos de muito ódio, egoísmo, indiferença, ausência de misericórdia e muita, muita hipocrisia religiosa. Na parábola do juiz injusto, que apesar de não temer a Deus atendeu o clamor da viúva, Jesus faz duas perguntas inquietantes: “Atentai à resposta do juiz da injustiça! Porventura Deus não fará plena justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam de dia e de noite, ainda que lhes pareça demorado em atendê-los? ... No entanto, quando o Filho do homem vier, encontrará fé em alguma parte da terra?” (Lc 18.1ss). Será que o cristão deste tempo ainda crê na plena justiça de Deus? Será que quando o Filho voltar ainda encontrará quem creia nele?

A crise moral brasileira se agrava mais a cada dia. Por um lado ela há de forjar, mais uma vez, cristãos tenazes cuja justiça é igual a de seu mestre, Jesus, o qual preferiu morrer a matar. Há de criar resiliência nessa gente que não abre mão do Evangelho legítimo. Por outro lado, essa mesma crise também há de revelar àqueles “cristãos” que em nada se diferenciam dos não-cristãos – quantas vezes mais justos e éticos que os chamados filhos da luz. Um tipo de gente que se veste como cristão, fala como cristão, cultua como cristão, mas não é cristão, porque, na verdade, nunca foi cristão de fato.

O caráter cristão precisa pautar-se na Bíblia, abandoando as paixões e juízos radicais, precisa voltar-se para justiça com misericórdia, para ação sem violência, para indignação sem ódio. Sobretudo precisa pauta-se no equilíbrio e no discernimento espiritual e não por essa ou aquela ideia de justiça (ou vingança?) imposta por uma sociedade corrupta e sem esperança. Em tempos de crise tanto maior torna-se a importância da Escritura na vida do crente. O caráter cristão em tempos de crise precisa manter-se firmado sobre a rocha e a rocha é a segurança que há nas palavras de Jesus traz.

1 de março de 2017

Uma andorinha só não faz verão - Aristóteles

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Assim como quem olha uma a andorinha migrando não imagina que o verão está chegando, um único ato de virtude não representa uma pessoa virtuosa. É na prática da vida, tanto mais nas situações difíceis, que se revela o caráter do indivíduo.

A virtude é um valor inerente a qualquer sociedade. E ela, a sociedade, exerce grande poder de influência sobre o indivíduo porque o homem, por uma questão primária de sobrevivência, necessita pertencer a um grupo. Emile Durkheim chama este poder de influência de Fatos Sociais.

Se por um lado, "o fato social, segundo Durkheim, consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem determinada força sobre os indivíduos, obrigando-os a se adaptar às regras da sociedade onde vivem", por outro, "nem tudo o que uma pessoa faz pode ser considerado um fato social, pois, para ser identificado como tal, tem de atender a três características: coercitividade, exterioridade e generalidade." Em outras palavras, nem todas as ações humanas são frutos do poder da sociedade, portanto, é possível uma pessoa agir, pensar e sentir diferente do grupo. – Não é fácil. É neste momento de "escape", nesse ineditismo da autenticidade humana, que se torna possível forjar a mais verdadeira individualidade.

A sociedade, tanto mais entre os mais jovens, parece viver a pungente necessidade de ser diferente. Mas diferente de quê? Diferente de quem? Diferente da maioria, diriam. No entanto, isso significa tornar-se igual a outros "diferentes", seguindo seus padrões de maneira coercitiva, ainda que não se perceba. A aparente diferença é uma igualdade a um grupo menor (talvez) constituindo pouco ou quase nada de inédito ou de individual próprio da pessoa. É sair de uma caixa para entrar em outra. – "Não existe nada de novo debaixo do sol."

Na sociedade de Jesus os valores são diferentes. Os discípulos, aqueles que nela ingressam, são assim reconhecidos quando possuem a maior de todas as virtudes: o amor. Permanecer “nas minhas palavras” é a regra, o objetivo maior é glorificar ao Pai. O agir, o pensar e o sentir de cada um devem ser capazes de influenciar a sociedade. Para estes, a vida só faz sentido porque o seu grupo social não pertence a este mundo como também não pertence o de Jesus. Sob estas perspectivas, valores e virtudes é que se põem os chamados discípulos de Cristo. Portanto, também no reino de Deus “uma andorinha só não faz verão”. É preciso viver o Evangelho todos os dias.

Nota:
Coercitividade – característica relacionada com o poder, ou a força, com a qual os padrões culturais de uma sociedade se impõem aos indivíduos que a integram, obrigando esses indivíduos a cumpri-los.
Exterioridade – quando o indivíduo nasce, a sociedade já está organizada, com suas leis, seus padrões, seu sistema financeiro, etc.; cabe ao indivíduo aprender, por intermédio da educação, por exemplo.
Generalidade – os fatos sociais são coletivos, ou seja, eles não existem para um único indivíduo, mas para todo um grupo, ou sociedade.
Fonte: http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=167

27 de fevereiro de 2017

O que é integridade à luz da Bíblia

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Valores são qualidades atribuídas a pessoas, coisas ou ações. Na antiga Grécia a coragem era um valor porque, naquele contexto de constantes disputas territoriais, essa era uma virtude desejável para se defender a pólis (a cidade), mesmo que isso significasse perder a própria vida. Segundo o professor Clóvis de Barros Filho, “valores são aquelas coisas que definem quem você é”. Para ele, quem trai os seus valores não sabe mais quem é e perde a própria identidade.
A palavra integridade deriva do Latim, intĕgrĭtās, e significa (de modo resumido): 1) aquilo que é fisicamente inteiro (corpo, território etc.); 2) aquilo que é puro sem máculas ou violações (mente, palavras, ações); 3) que tem estado perfeito (saudável) e 4) o que guarda inocência (uma vida pura). Integridade enquanto valor é algo ligado ao caráter, a probidade, a mente inteira, ao comportamento ético e as palavras que reflitam pureza: sem máculas, sem segundas intenções ou aliciamentos.
Na Bíblia não encontramos uma palavra correspondente direta de integridade: nem no hebraico nem no grego. No entanto, ante a exigência moral e ética do conceito, pode-se afirmar que a Bíblia, como um todo, carrega uma mensagem da integridade exigida e necessária a todo homem no seu relacionamento com Deus, sobretudo no Novo Testamento. O conceito de integridade está tão arraigado na Escritura que a palavra πεπληρωμένα (peplērōmena-completo, cheio até o máximo), traduzida normalmente como “perfeita”, na versão King James é traduzida como integridade. “Sê alerta! E fortalece o que ainda resta e estava prestes a morrer; porque não tenho encontrado integridade em tuas obras diante do meu Deus” (Ap 3.2).
Integridade da mente é a característica principal do cristão.  O apóstolo Paulo fala da renovação da mente onde o novo homem pensa de modo diferente do velho homem. A mente é de tal modo importante que a palavra traduzida como arrependimento é μετανοια (metanóia), mudança de mente. No Antigo Testamento guardar o coração (lebab-homem interior, mente, vontade, coração, alma) semanticamente significa guardar a mente. Em Lucas 6.45, certamente Jesus se refere a mente quando afirma: “a boca fala do que está repleto o coração”. Jesus ensinando sobre seus critérios afirma: “Se permanecerdes na minha Palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos”. O discípulo tem sua forma de pensar totalmente diferente da maneira antiga porque a Palavra permanece no seu coração.
Uma mente íntegra leva a atitudes diferentes diante das circunstâncias da vida, sobretudo nas mais conflituosas. Para o pastor Martin Luther King Junior, “a verdadeira medida de um homem não se vê na forma como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsias e desafios”. Nesse sentido, a conversão mediante o arrependimento é algo único. Ninguém se converte todos os dias. Paulo ensina que o homem, depois de convertido, renova sua mente a cada dia a partir do maior conhecimento da graça de Cristo. Um crescimento que vai da fase infantil até fase adulta quando, finalmente, esse novo homem alcança a estatura do Varão Perfeito. E para que não haja dúvidas em seus leitores, o apóstolo enumera de modo muito prático como se dão as mudanças de comportamento: Mentia, não minta mais; furtava, não furte mais; irou-se, não peque. Comportamentos necessários a não entristecer o Espírito Santo que habita em todo aquele que já aceitou Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Cuidadosamente ele conclui sua lista: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra que cause destruição, mas somente a que seja útil para a edificação”.
Uma mente íntegra resulta em palavras igualmente íntegras (puras, sem malícia). Assim como em Lucas e Efésios, Tiago alerta sobre a necessidade do controle sobre a língua (as palavras). Para ele, a língua “é fogo; é um mundo de iniquidade, pode contaminar a pessoa por inteiro, e põe completamente em chamas o curso da nossa existência”. Destaca ainda o autor que todos os animais e feras se submetem a vontade do homem, mas “a língua, contudo, nenhuma pessoa consegue dominar. É um mal incontrolável, cheia de veneno mortal”. E, por que não consegue dominar? Porque o coração está cheio de ... Tiago argumenta com aqueles que imaginam ser possíveis as contradições intencionais acerca das palavras boas e más (sem integridade): “Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus queridos irmãos, isso não está certo!”
Todavia, silenciar não é necessariamente “controlar” a língua. Para a psicóloga e jornalista Maria Rita Kehl, “quando um processo que nem ao menos é justo, é conduzido por interesses inconfessáveis, mas que todo mundo mais ou menos já sabe, então se cria uma espécie de capa de cinismo que encobre os processos sociais”. Ou seja, faz-se um “Pacto do Cinismo” onde todos, sabendo que está errado, mantém o silêncio diante da injustiça. Neste mesmo sentido o pastor Luther King classifica esse cinismo de “o silêncio dos bons”. Para ele “quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele.” Nesse silêncio, a falta de integridade revela-se tão nociva quanto falta de integridade no falar. Por isso, Tiago assevera: “Refleti sobre isto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado.”
Portanto, integridade, enquanto um valor cristão, passa pelos conceitos éticos, morais, sociais e psicológicos das chamadas ciências humanas, no entanto, supera estes conceitos em muito. Porque, em Cristo, o homem é transformado totalmente e, à medida que vai crescendo na graça e no conhecimento de Deus, aperfeiçoa (renova) o que já foi mudado no mais profundo do seu ser. Uma mente íntegra, pura, proba, reta, digna, inteira e integrada à mente de Cristo implica em ações coerentes com a mudança ocorrida na alma. De igual modo, o falar e o calar refletem uma mente íntegra. É verdade que a religiosidade pode moldar comportamentos e palavras sem que haja uma mudança interior verdadeira. Mas, isso, só compete a Deus saber. Por outro lado, se o comportamento e as palavras não são as de Cristo é muito difícil afirmar uma integridade cristã ocorrida no interior do homem. Se a filosofia afirma que sem valores o homem perde sua própria identidade, o cristianismo assegura que sem valores cristãos este perde a identidade de Cristo. Talvez o apóstolo Paulo tenha sido quem melhor definiu o conceito integridade sob a ótica de Jesus. “Fui crucificado juntamente com Cristo. E, desse modo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”.
Que a nossa natureza morra e germine a natureza de Cristo em nós. No pensar, no agir e no falar.

OBS: Este texto foi escrito especialmente para a Igreja Batista do Méier(revista Pensar 14, pg 20). Para conhecer mais sobre os valores da igreja clique aqui.
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