20 de julho de 2014

Tempo que foge e foge depressa

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.”1

Em seu conhecido texto, o pastor Ricardo Gondim:2 1) Se dá conta que o tempo que falta viver é menor do que o aquele que viveu até agora; 2) Deseja aproveitar ao máximo o tempo que lhe resta: “faltam poucas”. Pensar sob essa perspectiva costuma realinhar o modo ver e viver a vida cristã. Normalmente ajuda a redefinir com o que vale ou não a pena gastar o tempo.

Para o autor, algumas coisas perderam a importância. “Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos ... para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos parlamentares e regimentos internos ... para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos ... para debater vírgulas, detalhes gramaticais sutis, ou sobre as diferentes traduções da Bíblia. ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos. Já não tenho tempo para ficar dando explicação aos medianos se estou ou não perdendo a fé, porque admiro a poesia do Chico Buarque e do Vinicius de Moraes ...”

Por outro lado, outras valem cada segundo do seu tempo. “Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita para a ‘última hora’; não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja andar humildemente com Deus. Caminhar perto dessas pessoas nunca será perda de tempo.”

Tomado por essa mesma sensação penso no Senhor Jesus. Ele veio ao mundo em forma humana e, decidiu andar, ensinar e acreditar nas pessoas. Num ato esplêndido de amor, aceitou morrer em favor dos redimidos, mesmo sabendo que nem todos o aceitariam. “Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos” (Mc 10,45). Foi humilhado, traído e abandonado, inclusive por seus maiores amigos. Foi insultado, incompreendido pela religião dura e fria e, finalmente, foi açoitado e morto injustamente. Então; será que valeu a pena?

“Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniquidades deles levará sobre si.” (Is 53,11). Sim, por amor valeu. Valeu a pena ser pisado e espremido (Getsêmani)3. Por “causa dos eleitos que escolheu” (Mc 13,20) valeu a pena gastar seu tempo e acreditar nas pessoas. Nossa vida cristã precisa valer a pena e, de modo geral, a finitude nos ajuda a realinha as prioridades e a valorizar aquilo que realmente tem valor: gente.

Portanto, precisamos remir o tempo de modo a produzirmos frutos dignos de arrependimento enquanto há tempo. Porque, pensando bem, o tempo foge e foge depressa.


1GONDIM, Ricardo. Eu creio, mas tenho duvidas (Tempo que foge). Viçosa: ed. Ultimato, 2007. p. 102.
2Alguns atribuem, por engano, a autoria desse texto a Rubem Alves.
3Lugar onde se espremiam as azeitonas para se retirar o azeite.

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