30 de junho de 2012

Uma vida marcada por lutas e vitórias

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Ao pastor, professor e amigo José Avenas Filho.
Pastor porque com verdadeira humilde nos ajudava a encontrar o caminho. Professor porque, por tudo que sabia, preferia a irreverência como modo de ensinar e assim nós realmente aprendíamos. Amigo porque nunca se colocava acima dos seus alunos, mas ao lado ajudando na caminhada.

Agradeço a Deus por tê-lo conhecido e peço a Ele que esteja sempre com você por onde andar. Sua vida tem sido assim, marcada por lutas e vitórias. Você é um vencedor.

Haveria muito a dizer, mas esta é uma hora de silêncio.
Profundo, inquietante e o mais absoluto silêncio! chiiii!

"You can chain me, you can torture me, you can even destroy this body, but you will never imprison my mind."
"Você pode me acorrentar, você pode me torturar, você pode até mesmo destruir este corpo, mas você nunca vai aprisionar minha mente." (Mohandas Karamchand Gandhi: o Mahatma Gandhi)

27 de junho de 2012

Os Professores não merecem ...

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Os Professores não merecem ...
Não merecem ser tratados de modo indigno. Não merecem ser usurpados do fruto do seu labor, plantado e colhido com o suor dos seus rostos. Não merecem ficar sem o pão de cada dia. Pai dá-lhes o pão, hoje! Não merecem ser ignorados na sua dor. Não merecem sofrer calados como se nada estivesse acontecendo. Não, isso eles não merecem: choramos com os que choram.

Não merecem ser vilipendiados por ninguém. Não merecem ser instrumentalizados para eximir da culpa àqueles que deveriam assumir suas responsabilidades. Não merecem ser enganados falaciosamente fazendo-os crer que estão seguros e protegidos. Não, eles não merecem. Não merecem ser abandonados pelo mercenário quando vê vir o lobo.

Definitivamente, eles não merecem ...
Não merecem que injustiça prevaleça. Não merecem que os profetas se calem. Não merecem que os olhos se fechem. Não merecem o silêncio. Não merecem ser silenciados. Não merecem ser abandonados à beira do caminho na estrada para Jericó.

Merecem nosso cuidado, nosso respeito, nosso conforto e nossas lágrimas. Merecem nossas mãos e nossas ações. Merecem, principalmente, a nossa voz a gritar e clamar por justiça.  Até quando!? Eles merecem exercer seu ofício, seu sacerdócio, em paz.

A Verdadeira paz não é somente a falta de tensão, é a presença de justiça.” (Martin Luther King Jr.)

Aos mestres com carinho.

22 de junho de 2012

O Seminário do Sul não vai fechar!!!

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Por Davidson Pereira de Freitas 
Diretor-geral do Seminário do Sul

Meus amados membros da Comunidade Acadêmica do Seminário do Sul/FABAT e amigos desta Casa,

Alguns comentários têm sido veiculados nas redes sociais sobre o futuro do Seminário do Sul. Muitos irmãos que amam esta casa, como nós amamos, preocupados com as mudanças que já ocorreram e que vão ocorrer, tem perguntado sobre o futuro da nossa Instituição mais que centenária. Por isso, invisto este tempo para fornecer alguns esclarecimentos que podem sanar as dúvidas que tenho identificado. Peço desculpas pelo tamanho deste texto, mas procurei relacionar informações que julgo úteis para a compreensão de todos os interessados.

Louvo a Deus pela vida de cada um que tem se preocupado e se voluntariado para atravessar conosco este período repleto de desafios e emoções.

Vivemos em um contexto diferente daquele instalado quando esta casa foi criada há 104 anos. Os Seminários da Convenção Batista Brasileira, aqueles geridos pela estrutura denominacional, primeiramente o Seminário do Norte (Recife), do Sul (Rio de Janeiro) e posteriormente, o Equatorial (Belém), tinham uma conotação de seminários nacionais, que recebiam, em sua grande maioria, alunos de outras regiões do país. Especificamente em nosso caso, todos os prédios construídos para moradia dos alunos, inclusive o prédio localizado na área que hoje pertence ao Colégio Batista, ficavam lotados de alunos de todas as partes do país e do mundo. A lotação era completa. Atualmente, 38% dos alunos dos cursos regulares, com duração de 4 anos, residem no campus. Somente no Estado do Rio de Janeiro, são identificados cerca de 40 Seminários Batistas e com isso, mesmo alunos que residem na cidade do Rio de Janeiro, nas regiões mais distantes, cujo trajeto demanda longo período de tempo, estão optando por estudarem em outras instituições de ensino, mais próximas de suas residências, igrejas ou trabalho. Com o crescimento da obra batista ao redor do país e a organização das Convenções Estaduais, foram surgindo os Seminários Estaduais que atendem à necessidade de formação ministerial dos campos, mantendo os vocacionados em suas regiões se preparando e trabalhando nas igrejas locais. Em muitos campos, não é possível abrir mão do trabalho destes vocacionados enquanto estão vivendo o momento de formação ministerial, e portanto, não são enviados para instituições mais distantes. Obviamente que este fenômeno reduziu consideravelmente o número de vocacionados de outros estados que são enviados para o Seminário do Sul.

Além disso, grande parte dos alunos que hoje estudam em nossa Instituição tem suas ocupações profissionais ao longo do dia. A demanda pelo curso diurno é quase inexistente. Com o advento da internet e a grande disponibilidade de material via mídia eletrônica, o movimento de pesquisa na biblioteca vem sofrendo considerável redução ao longo do período.
As condições das instalações físicas também são muito limitadas, pois os prédios são antigos e sofreram o desgaste natural da utilização e do tempo. Com isso, o nível de conforto oferecido está aquém das expectativas daqueles que planejam residir no campus. Para que nossas instalações sejam elevadas aos níveis satisfatórios, no que se refere ao ambiente destinado para moradia de alunos, é preciso fazer significativos investimentos para reformas englobando reforma hidráulica, elétrica e de modernização de paredes, banheiros, copas e cozinhas.

Essa nova realidade leva à uma taxa de desocupação elevada das instalações que outrora recebiam alunos no internato. Este fato somado aos altos custos de manutenção da propriedade, impossibilidade de realização de investimentos para modernização das instalações, inclusive das salas de aula que, com pouquíssimas exceções, mantém as características originais de sua construção, nos leva à necessidade de alterações na forma de utilização da propriedade.
Somado a isso, a dívida da instituição com o fisco, com os professores e empregados, assim como com outras organizações da denominação, nos leva à necessidade de venda de parte da propriedade para que seja possível quitar todos os débitos hoje existentes.

A parte da propriedade que está sendo negociada, conforme já anunciado desde 2009, engloba os três prédios destinados à moradia dos alunos casados com filhos – prédios 24, 25 e 26, hoje ocupados somente por 5 famílias que serão transferidas para outras instalações que serão reformadas e adaptadas para recebê-las de maneira digna. A propriedade onde está instalado o Seminário do Sul está registrada em nome da Associação Denominada Batista. A instituição tem com aquela organização, um contrato de comodato que nos permite utilizar a propriedade para a realização de nossa atividade fim: a formação ministerial. Por isso, os recursos a serem pagos pela área a ser vendida, deverão ser depositados em conta bancária daquela organização, que é gerida por nosso Diretor Executivo – Pr Sócrates Oliveira de Souza, servo do Senhor, comprometido com a Obra Batista no Brasil, com reputação ilibada, com longa folha de serviços prestados à nossa denominação e que está completamente comprometido com o desafio de sanear as dívidas da nossa instituição. Além disso, a Assembleia Geral da Convenção Batista Brasileira, reunida na cidade de Foz do Iguaçu, em janeiro de 2012, determinou que os recursos oriundos da venda da propriedade do Seminário do Sul deverão ser utilizados prioritariamente para sanar as dívidas existentes. Vale esclarecer este ponto em função de comentários especulativos acerca da utilização dos recursos da venda da área em negociação.

Esta negociação deve ser definitivamente concluída nos próximos dias e teremos, então, um visão completa dos próximos passos que deveremos dar. Peço a todos que estejam em oração pela conclusão desta etapa da negociação, dando ao Pr Sócrates a direção necessária para as decisões que ele precisa tomar.

Com a subutilização de todo o espaço da propriedade, surgiu o entendimento da liderança denominacional no sentido de criar o tão sonhado Centro Batista que abrigará quase todas as organizações da denominação, à exceção da União Feminina que permanecerá em sua propriedade. Assim, teremos em um mesmo local, a sede da Convenção Batista Brasileira, as sedes das duas Juntas Missionárias – Missões Nacionais e Missões Mundiais e a sede da Juventude Batista Brasileira. Estas organizações virão juntar-se à União de Homens, à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, à Associação dos Músicos Batistas e Associação dos Diáconos Batistas, cujas sedes hoje já funcionam em nosso campus. Com isso, será criado um grande condomínio no qual todas as organizações assumirão a responsabilidade pela manutenção da propriedade, pela forma de rateio proporcional. Para os batistas brasileiros, será uma grande vantagem poder encontrar quase todas as organizações denominacionais em um mesmo espaço físico.

A estruturação do Centro Batista, seja pela construção de um novo prédio, seja pelo aproveitamento de espaços hoje existentes que demandam reformas, não vai, de forma alguma, impossibilitar o funcionamento do Seminário do Sul. Pelo contrário, vai facilitar ainda mais, pela redução dos custos de manutenção hoje completamente arcados pela instituição. Além disso, os alunos terão a possibilidade de contato direto e próximo com as organizações denominacionais e suas lideranças, o que é extremamente saudável para que se fortaleça os vínculos denominacionais daqueles que estão se preparando para a vida ministerial.

O Seminário do Sul, nestes últimos anos, passou por uma reestruturação, não somente administrativa, mas especialmente de direcionamento da formação que oferece aos alunos. As declarações de visão e missão sofreram alterações que direcionaram ajustes nos cursos oferecidos e nas disciplinas lecionadas, a fim de contribuir para a formação ministerial esperada pelas igrejas que enviam ou recomendam seus membros com vistas a tê-los atuando nos mais diversos ministérios.
Missão
Servir às igrejas batistas atuando na capacitação ministerial dos vocacionados e líderes por elas enviados, a fim de viabilizar sua missão evangelizadora e transformadora do ser humano de forma integral.

Visão
Ser uma instituição de educação ministerial batista, comprometida com a Palavra de Deus, com os princípios denominacionais, com a excelência de um ensino cristão firme e apologético, que  satisfaça às igrejas que desejarem capacitar seus líderes em consonância com nossa confissão de fé e princípios.

Valores
1.      Reconhecimento da soberania de Deus;
2.       Cooperação com a denominação Batista em todos os níveis;
3.      Lealdade aos princípios e doutrinas batistas, para assim vivenciar e difundir os valores e a ética cristã;
4.      Desenvolvimento de um ambiente de comunhão e unidade com o cultivo do convívio social em termos de respeito e cooperação mútuos e formação da consciência crítica em sociedade que preserve o ser humano e sua dignidade;
5.      Busca constante de melhoria da qualidade e da profundidade no ensino, sempre norteado pelos princípios e doutrinas batistas;
6.      Promover uma formação integral da pessoa humana com o desenvolvimento do senso crítico e a autocrítica, sem perda dos valores batistas e legítimos do cristianismo, com foco no aluno e na qualidade acadêmica;
7.      Ética, transparência e integridade em todos os nossos atos;
8.      Respeito à liberdade de pensamento;
9.      Priorização das pessoas em detrimento das coisas com foco no ser humano e sua qualidade de vida;
10.  Preocupação permanente com a satisfação das pessoas que fazem parte da Comunidade Acadêmica do Seminário do Sul;
11.  Qualidade e produtividade acima da média;
12.  Aprendizado contínuo;
13.  Excelência naquilo que fazemos

Atualmente, o STBSB tem recuperado a sua missão de servir às igrejas batistas atuando na capacitação ministerial dos vocacionados e líderes por elas enviados, a fim de viabilizar sua missão evangelizadora e transformadora do ser humano de forma integral. A partir da visão de ser uma instituição de educação ministerial batista, comprometida com a Palavra de Deus, com os princípios denominacionais, com a excelência de um ensino cristão firme e apologético, que satisfaça às igrejas que desejarem capacitar seus líderes em consonância com nossa confissão de fé e princípios. Com sua missão e visão em mente, o STBSB tem oferecido cursos que coadunem a visão ministerial com o alto nível acadêmico. Esta vocação tem trazido alunos ansiosos por formação/atualização ministerial. O ambiente de trabalho, em termos de cooperação mútua dos membros do corpo docente e equipe administrativa, tem contribuído para a continuidade de nossas atividades.

Na reestruturação administrativa os custos têm sido reduzidos significativamente. Contudo, como o nível de inadimplência tem se mantido alto, ainda não temos a capacidade de honrar com todos os compromissos financeiros inerentes à operação. Neste momento, temos quase três meses de salários em atraso, ao mesmo tempo que temos R$ 203 mil de mensalidades do ano de 2012 a receber. Caso tais valores tivessem sido pagos pelos alunos matriculados, estaríamos com nossos compromissos em dia. Se somarmos os R$ 158 mil de mensalidades de 2011 não recebidas no período, além da pontualidade em nossos pagamentos, ainda teríamos fôlego para investimentos de modernização de instalações. Em 18 meses, temos um valor de inadimplência de R$ 361 mil a receber. Significativo valor que teria mudado a nossa realidade. Vejam o gráfico:



Apesar destas dificuldades, não se cogita a hipótese de fechamento da instituição. Estamos aguardando a qualquer momento a publicação no Diário Oficial da União do reconhecimento do Curso de Teologia e poderemos então, oferecer a convalidação dos diplomas de alunos dos cursos livres, significando este fato uma oportunidade de aumento da receita operacional que levará a instituição ao superávit operacional tão sonhado.

Neste momento, precisamos das orações dos batistas brasileiros, precisamos de alunos que venham estudar conosco, precisamos da pontualidade no pagamento daqueles alunos que já estão caminhando conosco, precisamos da participação daqueles que desejarem contribuir para que possamos colocar em dia nossos compromissos.

Esperamos ainda, que neste segundo semestre de 2012, as dívidas mais criticas da instituição sejam sanadas. Isso somado ao fato de estarmos com a estrutura organizacional enxuta, despesas sob controle e novos cursos disponibilizados, nos leva à uma grande expectativa de um ano de 2013 de expansão, equilíbrio e desenvolvimento que viabilizem a longevidade da instituição que tem sido relevante para a formação ministerial.

É fato que temos problemas operacionais para serem resolvidos a curtíssimo prazo, como por exemplo o pagamento dos salários em atraso e a redução da inadimplência. É verdade que a solução do segundo, viabiliza a solução do primeiro. Para tanto, precisamos das orações e ação daqueles que amam esta casa e têm interesse em sua continuidade.

Crendo no poder de Deus, que é o verdadeiro proprietário do Seminário do Sul, olho para o futuro com esperança e gratidão, em primeiro lugar ao nosso Senhor, mas também gratidão a cada membro da equipe do Seminário do Sul que nestes três últimos anos, tem caminhado ao meu lado, com fé, parceria, amizade, determinação, fidelidade ao ministério da docência e amor a Deus e aos alunos que o Senhor nos tem confiado. É um privilégio para mim servir a Deus ao lado de vocês!

O conteúdo desta mensagem pode ser distribuído sem qualquer dificuldade a fim de dirimir dúvidas e evitar que a especulação pelo fechamento do Seminário do Sul tome grandes proporções.

Oremos e marchemos para a glória de Deus!

Em Cristo, o nosso Senhor,


19 de maio de 2012

Pastores Feridos

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Pastores que abandonam o púlpito enfrentam o difícil caminho da auto-aceitação e do recomeço.

Por Marcelo Brasileiro

Encontrar o equilíbrio no ministério não é tarefa fácil. Que o digam os ex-pastores ou pastores afastados do púlpito que passam a exercer outras atividades ou profissões depois de um período servindo à igreja.

Desânimo, solidão, insegurança, medo e dúvida. Uma estranha combinação de sensações passou a atormentar José Nilton Lima Fernandes, hoje com 41 anos, a certa altura da vida. Pastor evangélico, ele chegou ao púlpito depois de uma longa vivência religiosa, que se confunde com a de sua trajetória. Criado numa igreja pentecostal, Nilton exerceu a liderança da mocidade já aos 16 anos, e logo sentiria o chamado – expressão que, no jargão evangélico, designa aquele momento em que o indivíduo percebe-se vocacionado por Deus para o ministério da Palavra. Mas foi numa denominação do ramo protestante histórico, a Igreja Presbiteriana Independente (IPI), na cidade de São Paulo, que ele se estabeleceu como pastor. Graduado em Direito, Teologia e Filosofia, tinha tudo para ser um excelente ministro do Evangelho, aliando a erudição ao conhecimento das Sagradas Escrituras. Contudo, ele chegou diante de uma encruzilhada. Passou a duvidar se valeria mesmo a pena ser um pastor evangélico. Afinal, a vida não seria melhor sem o tal “chamado pastoral”?

As razões para sua inquietação eram enormes. Ordenado pastor desde 1995, foi justamente na igreja que experimentou seus piores dissabores. Conheceu a intriga, lutou contra conchavos, desgastou-se para desmantelar o que chama de “estrutura de corrupção” dentro de uma das igrejas que pastoreou. Mas, no fim de tudo isso, percebeu que a luta fora inglória. José Nilton se enfraqueceu emocionalmente e viu o casamento ir por água abaixo.  Mesmo vencendo o braço-de-ferro para sanar a administração de sua igreja, perdeu o controle da vida. A mulher não foi capaz de suportar o que o ministério pastoral fez com ele. “Eu entrei num processo de morte. Adoeci e tive que procurar ajuda médica para me restabelecer”, conta. Com o fim do casamento, perdeu também a companhia permanente da filha pequena, uma das maiores dores de sua vida.

Foi preciso parar.  No fim de 2010, José Nilton protocolou uma carta à direção de sua igreja requisitando a “disponibilidade ativa”, uma licença concedida aos pastores da denominação. Passou todo o ano de 2011 longe das funções ministeriais. No período, foi exercer outras funções, como advogado e professor de escola pública e de seminário.  “Acho possível servir a Jesus, independentemente de ser pastor ou não”, raciocina, analisando a vida em perspectiva. “Não acredito mais que um ministério pastoral só possa ser exercido dentro da igreja, que o chamado se aplica apenas dentro do templo. Quebrei essa visão clerical”. Reconstruindo-se das cicatrizes, Nilton casou-se novamente. E, este ano retornou ao púlpito, assumindo o pastoreio de uma igreja na zona leste de São Paulo. Todavia, não descarta outro freio de arrumação. “Acho que a vida útil de um líder é de três anos”, raciocina. “É o período em que ele mantém toda a força e disposição. Depois, é bom que esse processo seja renovado”. É assim que ele pretende caminhar daqui para frente: sem fazer do pastorado o centro ou a razão da sua vida.

Encontrar o equilíbrio no ministério não é tarefa fácil. Que o digam os ex-pastores ou pastores afastados do púlpito que passam a exercer outras atividades ou profissões depois de um período servindo à igreja. Uma das maiores denominações pentecostais do país, a Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), com seus 30 mil pastores filiados – entre homens e mulheres –, registra uma deserção de cerca de 70 pastores por mês desde o ano passado. Os números estão nas circulares da própria igreja. Não é gente que abandona a fé em Cristo, naturalmente; em sua maioria, os religiosos que pedem licença ou desligamento das atividades pastorais continuam vivendo sua vida cristã, como fez José Nilton no período em que esteve afastado do púlpito. É que as pressões espirituais e as demandas familiares e pessoais dos pastores, nem sempre supridas, constituem uma carga difícil de suportar ao longo doa anos. Some-se a isso os problemas enfrentados na própria igreja, as cobranças da liderança, a necessidade de administrar a obra sob o ponto de vista financeiro e – não raro – as disputas por poder e se terá uma ideia do conjunto de fatores que podem levar mesmo aquele abençoado homem de Deus a chutar tudo para o alto.
A própria IPI, onde José Nilton militou, embora muito menor que a Quadrangular – conta com cerca de 500 igrejas no país e 690 pastores registrados –, teria hoje algo em torno de 50 ministros licenciados, número registrado em relatório de 2009. Pode parecer pouco, mas representa quase dez por cento do corpo de pastores ativos. Caso se projete esse percentual à dimensão da já gigantesca Igreja Evangélica brasileira, com seus aproximadamente 40 milhões de fiéis, dá para estimar que a defecção dos púlpitos é mesmo numerosa. De acordo com números da Fundação Getúlio Vargas, o número de pastores evangélicos no país é cinco vezes maior do que a de padres católicos, que em 2006 era de 18,6 mil segundo o levantamento Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais. Porém, devido à informalidade da atividade pastoral no país, é certo que os números sejam bem maiores.


FERIDOS QUE FEREM

O chamado pastoral sempre foi o mais valorizado no segmento evangélico. Por essa razão, é de se estranhar quando alguém que se diz escolhido por Deus para apascentar suas ovelhas resolva abandonar esse caminho. Nos Estados Unidos, algumas pesquisas tentam explicar os principais motivos que levam os pastores a deixar de lado a tarefa que um dia abraçaram. Uma delas foi realizada pelo ministério LifeWay, que, por telefone, contatou mil pastores que exerciam liderança em suas comunidades eclesiásticas. E o resultado foi que, apesar de se sentirem privilegiados pelo cargo que ocupavam (item expresso por 98% dos entrevistados), mais da metade, ou 55%, afirmaram que se sentiam solitários em seus ministérios e concordavam com a afirmação “acho que é fácil ficar desanimado”. Curiosamente, foram os veteranos, com mais 65 anos, os menos desanimados. Já os dirigentes das megaigrejas foram os que mais reclamaram de problemas. De acordo com o presidente da área de pesquisas da Life Way, Ed Stetzer – que já pastoreou diversas igrejas –, a principal razão para o desânimo pode vir de expectativas irreais. “Líderes influenciados por uma mentalidade consumista cristã ferem todos os envolvidos”, aponta. “Precisamos muito menos de clientes e muito mais de cooperadores”, diz, em seu blog pessoal.

Outras pesquisas nos EUA vão além. O Instituto Francis Schaeffer, por exemplo, revelou que, no último ano, cerca de 1,5 mil pastores têm abandonado seus ministérios todos os meses por conta de desvios morais, esgotamento espiritual ou algum tipo de desavença na igreja. Numa pesquisa da entidade, 57% dos pastores ouvidos admitiram que deixariam suas igrejas locais, mesmo se fosse para um trabalho secular, caso tivessem oportunidade. E cerca de 70% afirmam sofrer depressão e admitem só ler a Bíblia quando preparam suas pregações. Do lado de cá do Equador, o nível de desistência também é elevado, ainda mais levando-se em conta as grandes expectativas apresentadas no início da caminhada pastoral pelos calouros dos seminários. “No começo do curso, percebemos que uma boa parte dos alunos possui um positivo encantamento pelo ministério. Mais adiante, já demonstram preocupação com alguns dilemas”, observa o diretor da Faculdade Teológica Batista de São Paulo, o pastor batista Lourenço Stélio Rega. Ele estima que 40% dos alunos que iniciam a faculdade de teologia desistem no meio do caminho. Os que chegam à ordenação, contudo, percebem que a luta será uma constante ao longo da vida ministerial – como, aliás, a própria Bíblia antecipa.

E, se é bom que o ministro seja alguém equilibrado, que viva no Espírito e não na carne, que governa bem a própria casa, seja marido de uma só mulher (ou vice-versa, já que, nos tempos do apóstolo Paulo não se praticava a ordenação feminina) e tantos outros requisitos, forçoso é reconhecer que muita gente fica pelo caminho pelos próprios erros. “O ministério é algo muito sério” lembra Gedimar de Araújo, pastor da Igreja Evangélica Ágape em Santo Antonio (ES) e líder nacional do Ministério de Apoio aos Pastores e Igrejas, o Mapi. “Se um médico, um advogado ou um contador erram, esse erro tem apenas implicação terrena. Mas, quando um ministro do Evangelho erra, isso pode ter implicações eternas.”

Desde que foi criado, há 20 anos, em Belo Horizonte (MG), como um braço do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal), o Mapi já atendeu milhares de pastores pelo país. Dessa experiência, Gedimar traça quatro principais razões que podem ser cruciais para a desmotivação e o abandono do ministério. “Ativismo exagerado, que não deixa tempo para a família ou o descanso; vida moral vacilante, que abre espaço para a tentação na área sexual; feridas emocionais e conflitos não resolvidos; e desgaste com a liderança, enfrentando líderes autoritários e que não cooperam”, enumera. Para ele, é preciso que tanto os membros das igrejas quanto as lideranças denominacionais tenham um cuidado especial com os pastores. “Muitos sofrem feridas, como também, muitas vezes, chegam para o ministério já machucados. E, infelizmente, pastor ferido acaba ferindo”.

Quanto à responsabilidade do próprio pastor com o zelo ministerial, Gedimar é taxativo: “É melhor declinar do ministério do que fazê-lo de qualquer jeito ou por simples necessidade”. A rede de apoio oferecida pelo Mapi supre uma lacuna fundamental até mesmo entre os pastores – a do pastoreio. “É preciso criar em torno do ministro algumas estruturas protetoras. É muito bom que o líder conte com um grupo de outros pastores onde possa se abrir e compartilhar suas lutas; um mentor que possa ajudá-lo a crescer e acompanhamento para seu casamento e família e, por fim, ter companheiros com quem possa desenvolver amizades e relacionamentos saudáveis e sólidos”, enumera.


EXPECTATIVAS

Juracy Carlos Bahia, pastor e diretor-executivo da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB), sediada no Rio de Janeiro, conhece bem o dilema dos colegas que, a certa altura do ministério, sentem-se questionados não só pelos outros, mas, sobretudo, por si mesmos. Ele lida com isso na prática e sabe que o preço acaba sendo caro demais. “Toda atividade que envolve vocação, como a do professor, a do médico ou a do pastor, é vista com muita expectativa. Quando se abandona esse caminho, é natural um sentimento de inadequação”. Para Bahia, o desencantamento com o ministério pastoral é fruto também do que entende como frustrações no contexto eclesiástico. Há pastores, por exemplo, que julgam não ter todo seu potencial intelectual utilizado pela comunidade. “Às vezes, o ministro acha que a igreja que pastoreia é pequena demais para seus projetos pessoais”, opina. Isso, acredita Bahia, estimula muitos a acumularem diversas funções, além das pastorais. “Eu defendo que os pastores atuem integralmente em seus ministérios. Porém, o que temos visto são pastores-advogados, pastores-professores, enfim, pastores que exercem outras profissões paralelas ao púlpito”, observa.
No entender do dirigente da OPBB, esse acúmulo de funções mina a energia e o potencial do obreiro para o serviço de Deus. A associação reúne aproximadamente dez mil pastores batistas e Bahia observa isso no seio da própria entidade: “Creio que metade deles sofra com a fuga das atividades pastorais para as seculares”. Contudo, ele acredita que deixar o ministério não é algo necessariamente negativo. “A pessoa pode ter se sentido vocacionada e, mais adiante na vida, por meio da experiência, das orações e interação com outros pastores, é perfeitamente possível chegar à conclusão que a interpretação que fez sobre seu chamado não foi adequada e sim emotiva”.

Quando, já na meia idade, casado e com dois filhos, ingressou no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), na capital pernambucana, Recife, Francisco das Chagas dos Santos parecia um menino de tanto entusiasmo. Nem mesmo as críticas de parentes para que buscasse uma colocação social que lhe desse mais status e dinheiro o desmotivou. “A igreja, para mim, é a melhor das oportunidades de buscar e conhecer meu Criador para que, pela graça, eu continue com firmeza a abrir espaço em meu coração para que ele cumpra sua vontade em mim, inclusive no ministério pastoral”, anotou em sua redação para o ingresso no SPN, em 1998. Ele formou-se no curso, foi ordenado pastor em 2003 e dirigiu igrejas nas cidades de Garanhuns e Saloá.

Hoje, aos 54 anos, Francisco trabalha como servidor público no Instituto Agronômico de Pernambuco. Ainda não curou todas as feridas e ressentimentos desde que, em 2010, entregou seu pedido de desligamento da denominação. Ele lamenta o tratamento recebido pelos seus superiores enquanto foi pastor. “Minha opinião sobre igreja não mudou. Nunca planejei um dia pedir licença ou despojamento do ministério. Mas entendo que somos o Corpo de Cristo, e, se uma unha dói, todos nós estamos doentes”, pondera. “Não é possível ser pastor sem pensar em restaurar vidas – e existem muitas vidas precisando de conserto, inclusive entre nós, pastores”.

A vida longe dos púlpitos ainda não foi totalmente sublimada e Francisco sabe bem que será constantemente indagado sobre sua decisão de deixar o ministério. “A impressão é que você deixou um desfalque, que adulterou ou algo parecido”, observa. Ele não considera voltar a pastorear pela denominação na qual se formou, porém não consegue deixar de imaginar-se como pastor. “Uma vez pastor, pastor para sempre”, recita, “muito embora as pessoas, em geral, acreditem que seja necessário um púlpito.”


Porta de saída

Pesquisa realizada nos Estados Unidos traçou um panorama dos problemas da atividade pastoral...

70% dos pastores admitem sofrer de depressão e estresse
80% deles sentem-se despreparados para o ministério
70% afirmam só ler a Bíblia quando precisam preparar seus sermões
40% já tiveram casos extraconjugais
30% reconhecem ter reduzido as próprias contribuições às igrejas após a crise financeira

... e avaliou as consequências disso:

1,5 mil pastores deixam o púlpito todos os meses
5 mil religiosos buscavam emprego secular no ano de 2009, mais do que o dobro do que ocorria em 2005
2 a 3 anos de ministério é o tempo médio em que os pastores deixam suas igrejas, sendo em direção a outras denominações ou não

Fontes: Barna Group, Christian Post, The Wall Street Journal, Instituto Francis A. Schaeffer e Instituto Jetro


Rebanho às avessas

A maioria dos pastores que se afastam de suas atividades ministeriais não abandona a fé em Cristo. Cada um deles, a seu modo, mantém sua vida espiritual e o relacionamento pessoal com Deus. Mas há quem saia do púlpito pela porta dos fundos, renegando as crenças defendidas com ardor durante tantos anos de atividade sacerdotal. Para estes – e, é bom que se diga, trata-se de uma opção nada recomendável –, existe a Freedom from Religion Foundation (“Fundação para o fim da religião”), entidade criada por ninguém menos que o mais famoso apologista do ateísmo da atualidade, o escritor britânico Richard Dawkins, autor do best-seller Deus, um delírio. Ele e um grupo de céticos lançaram o Projeto Clero, iniciativa que visa a apoiar ex-clérigos – pastores, padres, rabinos – no reinício da vida longe das funções religiosas. “Sacerdotes que perdem sua fé sofrem uma penalização dupla. Eles perdem seu emprego e, ao mesmo tempo, sua família e a vida que sempre tiveram”, argumenta Dawkins, no site do projeto. Não se tem notícia confiável de quantos ex-líderes aderiram ao Projeto Clero, mas parece óbvio que a ideia do refúgio ateu não é apenas abraçar sacerdotes cansados da vida religiosa, mas também engrossar o rebanho crescente daqueles que repudiam a possibilidade da existência de Deus.


Mudança difícil

Não foi uma escolha fácil. Quando o ex-pastor batista Osmar Guerra decidiu que seu lugar não era mais o púlpito, logo foi fustigado por olhares de decepção das pessoas que estavam ao seu redor e acreditavam em seu trabalho espiritual. Afinal, desde menino ele era o “pastorzinho” de sua igreja em Piracicaba, no interior paulista. Desinibido e articulado, o garoto, bem ensinado pelos pais na fé cristã, apresentava uma natural vocação para o pastorado. Por isso, foi natural sua decisão de matricular-se Faculdade Teológica Batista de São Paulo e, após os anos de estudo, assumir a função de pastor de adolescentes da Igreja Batista da Água Branca (IBAB), na capital paulista.

Começava ali uma promissora carreira ministerial. Osmar dividia seu trabalho entre as funções na igreja e as aulas de educação cristã, lecionadas no tradicional Colégio Batista. Tempos depois, o pastor transferiu-se para outra grande e prestigiada congregação, a Igreja Batista do Morumbi. Mas algo estava fora de sintonia, e Osmar sabia disso. Toda sua desenvoltura na oratória, sua capacidade de mobilização e seu espírito de liderança poderiam não ser, necessariamente, características de uma vocação pastoral. E, como dizem os jovens que ele tanto pastoreou, pintou uma dúvida: seu lugar era mesmo diante do rebanho?  “Eu era um excelente animador. Mas me faltava vocação, e fui percebendo isso cada vez mais”.

O novo caminho, ele sabia, não seria compreendido com facilidade pela família, pelos amigos e pelas ovelhas. Mas ele decidiu voltar a estudar, e escolheu a área de rádio e TV. E, mesmo ali, não escapou do apelido de “pastor”, aplicado pela turma. Quando conseguiu um estágio na TV Record, percebeu que ficava totalmente à vontade entre os cenários, as produções e os auditórios. Com seu talento natural, Osmar deslanchou, e o artista acabou suplantando o pastor. Depois de pedir demissão da igreja, em 2005, ele galgou posições na emissora e hoje é o produtor de um dos programas de maior sucesso da casa, O melhor do Brasil, apresentado pelo Rodrigo Faro.

“Durante muito tempo, fiquei em crise”, reconhece hoje, aos 31 anos. “Tive medo de tomar a decisão de deixar de ser pastor. Mas, hoje, sinto-me mais confiante e honesto comigo mesmo e perante os outros”, garante. Longe do púlpito, mas não de Jesus, Osmar Guerra continua participativo na sua igreja, a IBAB, onde toca e canta no louvor. De sua experiência, ele se acha no direito de aconselhar os mais jovens. “Defendo que, antes do seminário, as pessoas busquem formação em outras áreas, ainda mais quando são novas”, diz. Isso, segundo ele, pode abrir novas possibilidades se o indivíduo, por um motivo qualquer, sentir-se desconfortável no púlpito. Contudo, ele não descarta o valor de um chamado genuíno: “Se, mesmo assim, a vontade de se tornar um pastor continuar, isso é sinal de que o caminho pode ser esse mesmo.”

Fonte: Cristianismo Hoje 03-mai-2012

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