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8 de outubro de 2018

Não haverá sangue em minhas mãos

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CARTA ABERTA AOS PASTORES E IGREJAS QUE APOIAM BOLSONARO 

Por Hermes C. Fernandes (@hermesfernandesreal)

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Senhores (as) líderes evangélicos, graça, paz e discernimento!

As eleições se avizinham, e boa parte dos pastores de nosso país tem manifestado seu apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. A maioria alega ser ele o que melhor representa os anseios do povo evangélico, principalmente devido ao seu discurso favorável à família tradicional e aos valores morais tão caros ao cristianismo.

De repente, sinto-me como se houvesse viajado no tempo e revivesse os dias da guerra fria, quando o mundo se via ameaçado pela eclosão de uma guerra nuclear envolvendo as duas potências mundiais: A União Soviética e os Estados Unidos. Colegas vociferam de seus púlpitos sobre o perigo do comunismo que ronda a nossa sociedade. Pergunto-me em que mundo estamos vivendo, afinal? Qualquer um que levante sua voz a favor do pobre, do excluído, do oprimido, logo é tachado de esquerdopata, comunista, "agente do inferno", e coisa parecida.

Os senhores já pararam para se perguntar sobre o que estaria por trás deste discurso ultraconservador? Há uma onda conservadora varrendo a Europa e os EUA, suscitando velhos rancores contra os imigrantes, os homossexuais, as minorias, a classe operária, etc.

No meio desta avalanche de intolerância, eis que uma voz destoante se faz ouvir mundo afora. Não de um pastor como foi nos dias de Luther King nos EUA, ou de Bonhoeffer na Alemanha, mas de um Papa, líder da instituição mais conservadora do mundo. Por ironia, justamente o primeiro Papa latino-americano se levanta contra tudo e contra todos os que insistem em ressuscitar um discurso que há décadas parecia ter sido abandonado e enterrado. Enquanto isso, a igreja evangélica, que por tanto tempo esteve na vanguarda na luta pelos direitos humanos passa a se aliar com o que há de mais retrógrado e ultrapassado. Que vergonha! Tudo em nome de nossos escrúpulos moralistas.
Conseguiram a façanha de diluir o puro Evangelho da graça num discurso de ódio e intolerância.
Esquecemo-nos dos colegas que foram perseguidos, torturados, e, alguns até mortos e desaparecidos, durante o regime militar. Justificamo-nos no fato de que o tal candidato defenda os mesmos valores. Será que ser a favor da tortura soa menos cruel quando se é contrário ao aborto? Será que ser a favor do armamento da população condiz com o que foi ensinado por Jesus? Afinal, bem-aventurados são os pacificadores ou os que pretendem armar a população? Ser pela família tradicional abona a conduta de quem se revela contrário aos direitos trabalhistas conquistados a duras penas? Se você, pastor, é contra tais direitos, recomendo que não aceite mais dízimos de décimo-terceiro ou de férias de seus membros.

Não ajamos como o profeta Natan que encorajou a Davi a construir o templo, afirmando-lhe categoricamente que Deus o havia escolhido para aquela empreitada. Porém, o Senhor não o tinha autorizado a fazer tal coisa, de modo que, mesmo constrangido, teve que retornar ao rei e dizer-lhe a verdade. Por causa do sangue que havia em suas mãos, Deus não o designou para edificar Sua casa, ainda que já houvesse levantado todos os recursos para tal, e recebido do Senhor a planta, caberia ao seu sucessor tocar a obra.

Quem somos nós para abençoar o que Deus não abençoou? Quem somos nós para encorajar o que contraria frontalmente a Sua vontade?

Sei que muitos alegarão que tudo não passa de manipulação da mídia esquerdista. Mas basta assistir aos inúmeros vídeos de discursos e entrevistas do candidato para verificar que exatamente assim que ele pensa. Ele mesmo afirma que o trabalhador terá que escolher entre ter seus direitos assegurados ou o emprego. Ele é quem diz com todas as letras que o Estado não é laico, mas cristão e que as minorias terão que se dobrar à vontade das maiorias. Ele diz que seria incapaz de amar um filho homossexual e que a homossexualidade é falta de p*rrada na infância. Diz que não empregaria uma mulher, já que esta engravida. Diz que educou seus filhos para que jamais namorassem negras. Diz que em seu governo os índios não receberiam nem mais um centímetro de terra. Se ele é a favor da família tradicional, por que disse que usava o apartamento para "comer gente"? Como defender quem diz que uma mulher não merecia ser estuprada por ser feia? Como apoiar quem defende o uso da tortura se somos seguidores de um Cristo torturado e morto numa cruz? Como apoiar quem diz que ordenaria que helicópteros metralhassem uma favela se os criminosos não se rendessem? Será que na favela só mora bandido? Com que cara visitaremos os presídios para pregar o amor de Cristo depois de apoiar que tem como slogan "bandido bom é bandido morto"?

O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos!

Se você é pastor de uma pequena congregação, talvez esteja indo na onda de grandes líderes que já manifestaram seu apoio a Bolsonaro. Não seja ingênuo. Muitos deles o fazem, não por convicção, mas por conveniência, movidos por interesses nem sempre louváveis (alguns até sórdidos).

Lembre-se de quem nos considerou fiéis, pondo-nos em seu ministério (1 Timóteo 1.12), e que um dia, teremos que prestar contas (Hebreus 13.17).

Por isso, deixo aqui uma recomendação que deveria perturbar o sono de todos os que levam a sério o ministério pastoral:

"Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho." 1 Pedro 5.2,3
Não compete a pastor algum dizer em quem seu rebanho deve votar. Mas compete-nos instrui-los a reconhecer os riscos por trás de todo discurso de ódio e intolerância.

Jesus disse que enquanto o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, o ladrão, ao ver o lobo, foge e deixa suas ovelhas à mercê do perigo. Portanto, cumpramos nosso papel. Pois cuidar das ovelhas que nos foram confiadas é a melhor maneira de dizer: TU SABES QUE TE AMO, SENHOR.


Diante desta carta do pastor Hermes C. Ferandes examinei minha vida e meu jovem ministério. V Então, veio a mim a palavra do Senhor dita a Ezequiel.

Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte.
... quando o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o requererei. (Ezequiel 3.17 e 20)
Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniqüidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei.

Ezequiel 3:18
  Quando o justo se desviar da sua justiça, e praticar a iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; porque não o avisaste, no seu pecado morrerá e não serão lembradas as suas ações de justiça que tiver praticado; mas o seu sangue, da tua mão o requererei.” (Ezequiel 3,17 e 20)

Todavia, eu direi ao Senhor naquele dia em que há de me pedir contas: Não há sangue em mãos. Elas estão limpas tanto do sangue do ímpio quanto do sangue do justo. Eu cumpri zelosamente o ministério que Tu me confiaste.

6 de novembro de 2017

Ser igreja é assumir um duplo comprometimento

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A amizade de Jesus e Pedro

Pedro foi um discípulo de Jesus reconhecido por sua impulsividade.  Com frequência tomava a iniciativa ao falar ou agir diante das situações que se apresentavam. Essa característica de um líder nato lhe trazia, às vezes, méritos outras vezes, problemas. Apesar disso, Pedro era alguém em quem Jesus confiava. Junto com Tiago e João, ele viveu experiências únicas com Jesus. O Mestre sabia que podia contar com seus discípulos e amigos mais chegados.

A precipitação de Pedro

Certa vez Pedro (Mateus 17.24-27) precipitou-se ao assumir um compromisso desnecessário em Cafarnaum. “O vosso mestre não paga o imposto das duas dracmas, ao templo?”, indagaram os coletores de impostos daquela cidade. “Sim, paga”, foi a resposta imediata do líder e impulsivo Pedro.

A lealdade de Pedro

Observando a trajetória do Apóstolo narrada nos Evangelhos é fácil perceber o quanto Pedro era comprometido com seus amigos e, sobretudo, com seu Mestre – mesmo em momentos de grandes erros. Por exemplo: Depois de Jesus anunciar a sua morte (Mateus 16.21-23) Pedro vai até ele em particular e diz: “Deus seja gracioso contigo, Senhor! De modo algum isso jamais te acontecerá”. Motivado pelo cuidado com o Mestre e querendo evitar seu sofrimento, Pedro acaba se colocando contra à vontade de Deus e é reprendido pó isso. “Para trás de mim, Satanás [adversário]! Tu és uma pedra de tropeço, uma cilada para mim, pois tua atitude não reflete a Deus, mas, sim, os homens”. (Grifo nosso) Mesmo aqui é possível perceber sua motivação, sua lealdade e seu comprometimento. É neste contexto que ele não aceita a afronta dos coletores: “vosso mestre não paga o imposto”?

A pedagogia de Jesus

Para a precipitação de Pedro a antecipação de Jesus. De modo pedagógico Jesus o faz refletir sobre a razão de se assumir um compromisso desnecessário. “De quem cobram os reis da terra impostos e tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. Ora, eles eram naturais daquela região, portanto não fazia sentido pagar impostos como se fossem estrangeiros. Em outros termos, o que Jesus faz Pedro perceber é que sempre pagaram impostos e tributos como moradores daquele lugar, desde os tempos em que trabalhavam com a pescaria, portanto este era um tributo para allotrion (ἀλλοτρίων: estrangeiros, estranhos, forasteiros).

A responsabilidade de Jesus com seus amigos

O senso diria que este seria o momento de fazer Pedro voltar e desfazer o compromisso desnecessário à luz da legalidade. Curiosamente não é isso que Jesus faz. Ao invés de tomar uma posição comodamente política (não sei de nada, não assinei nada, não empenhei minha palavra nisso), Jesus assume o compromisso com seu amigo. A questão é que atitude afoita de Pedro não introduzia algo indigno, imoral, antitético ou ilegal a coletividade ou a Jesus em particular. Ele apenas cometera um excesso e não um erro. E, o fez, porque estava profundamente comprometido com seu grupo e, sobretudo com seu Mestre. Por isso a recíproca de Jesus foi além do esperado.
“Entretanto, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Retira aquela moeda e entregue a eles para pagar o meu imposto e o teu também.”

Para não causar skandalisomen (σκανδαλίσωμεν: vegonha, escândalo, ser motivo de tropeço e queda de alguém) Jesus assume a responsabilidade por ele (que não provocou) e por Pedro (que se precipitou). O estáter (equivalente a quatro dracmas) era suficiente para pagar o imposto (indevido) de ambos: Duas dracmas para cada um.

Aprendizado

Esta história demonstra que Jesus não só assume o compromisso pessoal criado por Pedro “vosso mestre não paga o imposto”?, mas também se antecipa a outros questionamentos levando-o a pagar também o tributo. Esse texto mostra um duplo comprometimento. Primeiro, de Pedro com seu mestre e seus amigos, porquanto ele queria evitar o escândalo àqueles a quem amava e respeitava. Segundo, de Jesus com seu amigo e seu líder o qual, na lide e enfrentamento das situações da vida, se precipitou justamente por causa do seu profundo envolvimento. Ao perceber o quanto Pedro se sentia responsável e comprometido, Jesus toma para si a responsabilidade “para que não os escandalizemos” (nós não escandalizemos a eles).

Conclusão

Faz parte de ser igreja: 1) Observar a responsabilidade e o comprometimento; 2) avaliar a as atitudes: quando contrárias à leis (de homens ou de Deus), correção; 3) evitar o escândalos assumindo as responsabilidades mútuas, sem se esquivar, tergiversar ou acusar o outro por eventuais equívocos. Neste texto fica claro um comprometimento de mão dupla: tanto do líder e quanto do liderado. Um belo exemplo de cumplicidade sem a mácula do corporativismo.
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