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24 de janeiro de 2019

A Fábula dos Dois Lobos (dos índios Cherokee)

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Certo dia, um jovem índio Cherokee chegou perto de seu avô para pedir um conselho. Momentos antes, um de seus amigos havia cometido uma injustiça contra o jovem e, tomado pela raiva, o índio resolveu buscar os sábios conselhos daquele ancião.

O velho índio olhou fundo nos olhos de seu neto e disse:

“Eu também, meu neto, às vezes, sinto grande ódio daqueles que cometem injustiças sem sentir qualquer arrependimento pelo que fizeram. Mas o ódio corrói quem o sente, e nunca fere o inimigo. É como tomar veneno, desejando que o inimigo morra.”

O jovem continuou olhando, surpreso, e o avô continuou:

“Várias vezes lutei contra esses sentimentos. É como se existissem dois lobos dentro de mim. Um deles é bom e não faz mal. Ele vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende. Ele só luta quando é preciso fazê-lo, e de maneira reta.”

“Mas o outro lobo… Este é cheio de raiva. A coisa mais insignificante é capaz de provocar nele um terrível acesso de raiva. Ele briga com todos, o tempo todo, sem nenhum motivo. Sua raiva e ódio são muito grandes, e por isso ele não mede as consequências de seus atos. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar nada. Às vezes, é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito.”

 O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: “E qual deles vence?
Ao que o avô sorriu e respondeu baixinho: “Aquele que eu alimento.”

Fonte: https://obemviver.blog.br/2015/03/23/a-fabula-dos-dois-lobos-qual-deles-voce-quer-alimentar-reflexao/

20 de outubro de 2018

O que é certo?

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Muitas vezes nos perguntamos: Como saber qual o lado certo? Como decidir corretamente diante de situações difíceis? Quais as melhores escolhas a se fazer? É tão difícil saber qual o melhor caminho a seguir. Afinal, o que é o certo!?

Será que:
1-Minhas palavras e atitudes geram e garantem a vida?
Então, devo estar do lado certo.

2-No íntimo dos meus pensamentos (no fundo da consciência) estou disposto a abrir mão dos meus diretos daquele que tem menos do que eu?
Então, estou do lado certo.

3-Sou capaz de entregar a minha própria vida para que um completo estranho continue vivendo?
Então, Cristo vive mim.

"Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos." (Marcos 10.45)
O certo é certo. Sempre!

14 de outubro de 2018

O que é amar o mundo

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Muitos afirmam ser João 3.16 o versículo mais importante da Bíblia. Dizem: “Se todo o texto sagrado se perdesse e restasse apenas esse, ele seria suficiente para se pregar a Boa Nova da salvação”. Mas o que significa dizer: Deus amou o mundo?

Significa dizer que o Verbo veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas também que Ele veio para os excluídos, os fracos, o estrangeiro. Jesus não condenou a mulher pega no ato do seu adultério, não ignorou os cegos e leprosos, elogiou o samaritano por acolher um judeu vítima de assalto. Imagina! Jesus desviou seu caminho para ir ao encontro de uma mulher em Samaria, almoçou na casa de um coletor de impostos e ainda convidou um outro para ser seu discípulo. Em Jesus, Deus amou os rejeitados pelos religiosos. Ele a todos acolheu. A todos amou.

Por outro lado, o Mestre fazia algumas escolhas “estranhas”. Sem tempo para Nicodemos, o recebeu à noite. Jesus exaltou as moedinhas da viúva desprezando as “grandes ofertas” dos ricos; se agradou da oração de um homem sem coragem sequer para olhar para o altar, rejeitando a oração do fariseu orgulhoso. Ele escolheu estar com as multidões sem pastor, os famintos sem pão, os cegos sem luz, os discípulos sem influência política. Jesus preferia às ruas a templos e sinagogas. Seu alvo eram os sem mérito, os sem valor, os sem esperança. Em toda a sua vida Ele trilhou o caminho da paz. Quando teve a chance de pegar em armas Jesus disse: “todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão!”.

O Verbo aceitou morrer injustamente ao invés de condenar o mundo ainda que com justiça. Por que? Porque foi assim que Deus amou e ainda ama o mundo.

Todos nós (eu e você) precisamos escolher qual caminho seguir. Amarmos o mundo e a Deus; ou odiarmos o mundo rejeitando o seu Criador; ou, em terceiro lugar, desprezarmos a sua Palavra como fizeram os mestres da Lei. Religiosos que mandaram matar o próprio Filho de Deus.

A escuridão não pode expulsar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. O ódio não pode expulsar o ódio, só o amor pode fazer isso.” (Martin Luther King Jr. – pastor batista)

8 de outubro de 2018

Não haverá sangue em minhas mãos

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CARTA ABERTA AOS PASTORES E IGREJAS QUE APOIAM BOLSONARO 

Por Hermes C. Fernandes (@hermesfernandesreal)

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Senhores (as) líderes evangélicos, graça, paz e discernimento!

As eleições se avizinham, e boa parte dos pastores de nosso país tem manifestado seu apoio à candidatura de Jair Bolsonaro. A maioria alega ser ele o que melhor representa os anseios do povo evangélico, principalmente devido ao seu discurso favorável à família tradicional e aos valores morais tão caros ao cristianismo.

De repente, sinto-me como se houvesse viajado no tempo e revivesse os dias da guerra fria, quando o mundo se via ameaçado pela eclosão de uma guerra nuclear envolvendo as duas potências mundiais: A União Soviética e os Estados Unidos. Colegas vociferam de seus púlpitos sobre o perigo do comunismo que ronda a nossa sociedade. Pergunto-me em que mundo estamos vivendo, afinal? Qualquer um que levante sua voz a favor do pobre, do excluído, do oprimido, logo é tachado de esquerdopata, comunista, "agente do inferno", e coisa parecida.

Os senhores já pararam para se perguntar sobre o que estaria por trás deste discurso ultraconservador? Há uma onda conservadora varrendo a Europa e os EUA, suscitando velhos rancores contra os imigrantes, os homossexuais, as minorias, a classe operária, etc.

No meio desta avalanche de intolerância, eis que uma voz destoante se faz ouvir mundo afora. Não de um pastor como foi nos dias de Luther King nos EUA, ou de Bonhoeffer na Alemanha, mas de um Papa, líder da instituição mais conservadora do mundo. Por ironia, justamente o primeiro Papa latino-americano se levanta contra tudo e contra todos os que insistem em ressuscitar um discurso que há décadas parecia ter sido abandonado e enterrado. Enquanto isso, a igreja evangélica, que por tanto tempo esteve na vanguarda na luta pelos direitos humanos passa a se aliar com o que há de mais retrógrado e ultrapassado. Que vergonha! Tudo em nome de nossos escrúpulos moralistas.
Conseguiram a façanha de diluir o puro Evangelho da graça num discurso de ódio e intolerância.
Esquecemo-nos dos colegas que foram perseguidos, torturados, e, alguns até mortos e desaparecidos, durante o regime militar. Justificamo-nos no fato de que o tal candidato defenda os mesmos valores. Será que ser a favor da tortura soa menos cruel quando se é contrário ao aborto? Será que ser a favor do armamento da população condiz com o que foi ensinado por Jesus? Afinal, bem-aventurados são os pacificadores ou os que pretendem armar a população? Ser pela família tradicional abona a conduta de quem se revela contrário aos direitos trabalhistas conquistados a duras penas? Se você, pastor, é contra tais direitos, recomendo que não aceite mais dízimos de décimo-terceiro ou de férias de seus membros.

Não ajamos como o profeta Natan que encorajou a Davi a construir o templo, afirmando-lhe categoricamente que Deus o havia escolhido para aquela empreitada. Porém, o Senhor não o tinha autorizado a fazer tal coisa, de modo que, mesmo constrangido, teve que retornar ao rei e dizer-lhe a verdade. Por causa do sangue que havia em suas mãos, Deus não o designou para edificar Sua casa, ainda que já houvesse levantado todos os recursos para tal, e recebido do Senhor a planta, caberia ao seu sucessor tocar a obra.

Quem somos nós para abençoar o que Deus não abençoou? Quem somos nós para encorajar o que contraria frontalmente a Sua vontade?

Sei que muitos alegarão que tudo não passa de manipulação da mídia esquerdista. Mas basta assistir aos inúmeros vídeos de discursos e entrevistas do candidato para verificar que exatamente assim que ele pensa. Ele mesmo afirma que o trabalhador terá que escolher entre ter seus direitos assegurados ou o emprego. Ele é quem diz com todas as letras que o Estado não é laico, mas cristão e que as minorias terão que se dobrar à vontade das maiorias. Ele diz que seria incapaz de amar um filho homossexual e que a homossexualidade é falta de p*rrada na infância. Diz que não empregaria uma mulher, já que esta engravida. Diz que educou seus filhos para que jamais namorassem negras. Diz que em seu governo os índios não receberiam nem mais um centímetro de terra. Se ele é a favor da família tradicional, por que disse que usava o apartamento para "comer gente"? Como defender quem diz que uma mulher não merecia ser estuprada por ser feia? Como apoiar quem defende o uso da tortura se somos seguidores de um Cristo torturado e morto numa cruz? Como apoiar quem diz que ordenaria que helicópteros metralhassem uma favela se os criminosos não se rendessem? Será que na favela só mora bandido? Com que cara visitaremos os presídios para pregar o amor de Cristo depois de apoiar que tem como slogan "bandido bom é bandido morto"?

O sangue de toda uma geração poderá cair em nossas mãos!

Se você é pastor de uma pequena congregação, talvez esteja indo na onda de grandes líderes que já manifestaram seu apoio a Bolsonaro. Não seja ingênuo. Muitos deles o fazem, não por convicção, mas por conveniência, movidos por interesses nem sempre louváveis (alguns até sórdidos).

Lembre-se de quem nos considerou fiéis, pondo-nos em seu ministério (1 Timóteo 1.12), e que um dia, teremos que prestar contas (Hebreus 13.17).

Por isso, deixo aqui uma recomendação que deveria perturbar o sono de todos os que levam a sério o ministério pastoral:

"Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho." 1 Pedro 5.2,3
Não compete a pastor algum dizer em quem seu rebanho deve votar. Mas compete-nos instrui-los a reconhecer os riscos por trás de todo discurso de ódio e intolerância.

Jesus disse que enquanto o bom pastor dá a vida pelas ovelhas, o ladrão, ao ver o lobo, foge e deixa suas ovelhas à mercê do perigo. Portanto, cumpramos nosso papel. Pois cuidar das ovelhas que nos foram confiadas é a melhor maneira de dizer: TU SABES QUE TE AMO, SENHOR.


Diante desta carta do pastor Hermes C. Ferandes examinei minha vida e meu jovem ministério. V Então, veio a mim a palavra do Senhor dita a Ezequiel.

Filho do homem, eu te dei por atalaia sobre a casa de Israel; da minha boca ouvirás a palavra e os avisarás da minha parte.
... quando o justo se desviar da sua justiça e fizer maldade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; visto que não o avisaste, no seu pecado morrerá, e suas justiças que praticara não serão lembradas, mas o seu sangue da tua mão o requererei. (Ezequiel 3.17 e 20)
Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares, nem falares para avisar o ímpio acerca do seu mau caminho, para salvar a sua vida, aquele ímpio morrerá na sua iniqüidade, mas o seu sangue, da tua mão o requererei.

Ezequiel 3:18
  Quando o justo se desviar da sua justiça, e praticar a iniquidade, e eu puser diante dele um tropeço, ele morrerá; porque não o avisaste, no seu pecado morrerá e não serão lembradas as suas ações de justiça que tiver praticado; mas o seu sangue, da tua mão o requererei.” (Ezequiel 3,17 e 20)

Todavia, eu direi ao Senhor naquele dia em que há de me pedir contas: Não há sangue em mãos. Elas estão limpas tanto do sangue do ímpio quanto do sangue do justo. Eu cumpri zelosamente o ministério que Tu me confiaste.

30 de março de 2018

Páscoa: Bandido Bom é Bandido Morto!

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Páscoa: A paixão de Cristo
A elite religiosa, movida de profunda inveja, subornou um dos amigos de Jesus, contratou o exército romano para prendê-lo e o julgou num tribunal de exceção sem qualquer direito à defesa.

Sem legitimidade para matá-lo, os religiosos o enviaram a Herodes, um rei ilegítimo, que o mandou de volta. Não satisfeitos eles apelaram à Suprema Corte Romana. Pilatos, um legislador-juiz frouxo, não viu culpa no hebreu, mas mesmo assim mandou castigá-lo imaginando que isso arrefeceria o ódio dos seus compatriotas. Isso não era suficiente! Eles queriam sangue. Ameaçando jogar Pilatos contra César, eles pediram a crucificação de Jesus: morte com requintes de crueldade.

Mesmo sendo inocente, Jesus foi condenado pela lei do Império, atendendo ao apelo da ingrata multidão que gritava: “Crucifica-o! Crucifica-o!”. As mesmas pessoas que há poucos dias o chamavam de rei; a mesma gente que tantas vezes ele ajudou, passou a odiar Jesus: o único que realmente se importava com os mais pobres.

E foi assim, que o Filho de Deus, sendo inocente, salvou a humanidade por sua morte: Invejado pelas elites, traído por seus amigos, preso coercitivamente, julgado sem defesa, torturado sem culpa, condenado pelo Império e morto a pedido da multidão. Foi assim que o amor venceu o ódio!

Feliz Páscoa! Feliz bandido bom é bandido morto!

Referências Bíblicas:
Mateus 26.47 – 27.31;
Marcos 14.43 – 15.19;
Lucas 22.47 – 23.25;
João 18.1 – 19.16;
João 3.16-17.

6 de novembro de 2017

Ser igreja é assumir um duplo comprometimento

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A amizade de Jesus e Pedro

Pedro foi um discípulo de Jesus reconhecido por sua impulsividade.  Com frequência tomava a iniciativa ao falar ou agir diante das situações que se apresentavam. Essa característica de um líder nato lhe trazia, às vezes, méritos outras vezes, problemas. Apesar disso, Pedro era alguém em quem Jesus confiava. Junto com Tiago e João, ele viveu experiências únicas com Jesus. O Mestre sabia que podia contar com seus discípulos e amigos mais chegados.

A precipitação de Pedro

Certa vez Pedro (Mateus 17.24-27) precipitou-se ao assumir um compromisso desnecessário em Cafarnaum. “O vosso mestre não paga o imposto das duas dracmas, ao templo?”, indagaram os coletores de impostos daquela cidade. “Sim, paga”, foi a resposta imediata do líder e impulsivo Pedro.

A lealdade de Pedro

Observando a trajetória do Apóstolo narrada nos Evangelhos é fácil perceber o quanto Pedro era comprometido com seus amigos e, sobretudo, com seu Mestre – mesmo em momentos de grandes erros. Por exemplo: Depois de Jesus anunciar a sua morte (Mateus 16.21-23) Pedro vai até ele em particular e diz: “Deus seja gracioso contigo, Senhor! De modo algum isso jamais te acontecerá”. Motivado pelo cuidado com o Mestre e querendo evitar seu sofrimento, Pedro acaba se colocando contra à vontade de Deus e é reprendido pó isso. “Para trás de mim, Satanás [adversário]! Tu és uma pedra de tropeço, uma cilada para mim, pois tua atitude não reflete a Deus, mas, sim, os homens”. (Grifo nosso) Mesmo aqui é possível perceber sua motivação, sua lealdade e seu comprometimento. É neste contexto que ele não aceita a afronta dos coletores: “vosso mestre não paga o imposto”?

A pedagogia de Jesus

Para a precipitação de Pedro a antecipação de Jesus. De modo pedagógico Jesus o faz refletir sobre a razão de se assumir um compromisso desnecessário. “De quem cobram os reis da terra impostos e tributos? Dos seus filhos ou dos estranhos?”. Ora, eles eram naturais daquela região, portanto não fazia sentido pagar impostos como se fossem estrangeiros. Em outros termos, o que Jesus faz Pedro perceber é que sempre pagaram impostos e tributos como moradores daquele lugar, desde os tempos em que trabalhavam com a pescaria, portanto este era um tributo para allotrion (ἀλλοτρίων: estrangeiros, estranhos, forasteiros).

A responsabilidade de Jesus com seus amigos

O senso diria que este seria o momento de fazer Pedro voltar e desfazer o compromisso desnecessário à luz da legalidade. Curiosamente não é isso que Jesus faz. Ao invés de tomar uma posição comodamente política (não sei de nada, não assinei nada, não empenhei minha palavra nisso), Jesus assume o compromisso com seu amigo. A questão é que atitude afoita de Pedro não introduzia algo indigno, imoral, antitético ou ilegal a coletividade ou a Jesus em particular. Ele apenas cometera um excesso e não um erro. E, o fez, porque estava profundamente comprometido com seu grupo e, sobretudo com seu Mestre. Por isso a recíproca de Jesus foi além do esperado.
“Entretanto, para que não os escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tira-o, e, abrindo-lhe a boca, acharás um estáter. Retira aquela moeda e entregue a eles para pagar o meu imposto e o teu também.”

Para não causar skandalisomen (σκανδαλίσωμεν: vegonha, escândalo, ser motivo de tropeço e queda de alguém) Jesus assume a responsabilidade por ele (que não provocou) e por Pedro (que se precipitou). O estáter (equivalente a quatro dracmas) era suficiente para pagar o imposto (indevido) de ambos: Duas dracmas para cada um.

Aprendizado

Esta história demonstra que Jesus não só assume o compromisso pessoal criado por Pedro “vosso mestre não paga o imposto”?, mas também se antecipa a outros questionamentos levando-o a pagar também o tributo. Esse texto mostra um duplo comprometimento. Primeiro, de Pedro com seu mestre e seus amigos, porquanto ele queria evitar o escândalo àqueles a quem amava e respeitava. Segundo, de Jesus com seu amigo e seu líder o qual, na lide e enfrentamento das situações da vida, se precipitou justamente por causa do seu profundo envolvimento. Ao perceber o quanto Pedro se sentia responsável e comprometido, Jesus toma para si a responsabilidade “para que não os escandalizemos” (nós não escandalizemos a eles).

Conclusão

Faz parte de ser igreja: 1) Observar a responsabilidade e o comprometimento; 2) avaliar a as atitudes: quando contrárias à leis (de homens ou de Deus), correção; 3) evitar o escândalos assumindo as responsabilidades mútuas, sem se esquivar, tergiversar ou acusar o outro por eventuais equívocos. Neste texto fica claro um comprometimento de mão dupla: tanto do líder e quanto do liderado. Um belo exemplo de cumplicidade sem a mácula do corporativismo.

14 de março de 2017

O caráter cristão em tempos de crise

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Vale a pena começar citando a sutil diferença entre os termos passivo e pacífico. Passivo é alguém alienado, pacífico é alguém não-violento. Mahatma Gandhi, Luther King, entre outros, jamais foram alheios aos problemas e as mazelas da sociedade do seu tempo (passivos). Tão pouco Jesus o foi. Todavia, nunca foram violentos (pacíficos).

Sobre caráter, alguém disse certa vez: “Existem três situações em que uma pessoa revela quem realmente ela é. Quando tem muito dinheiro e muito poder: porque não precisa prestar contas a ninguém do que faz ou pensa; quando não tem nada: porque aí se descobre se é ela realmente capaz de dividir o seu ‘nada’ com quem está em uma situação ainda pior; e quando está em um lugar onde ninguém a conhece: porque pode assumir a identidade que quiser e fazer o que bem entender sem nenhuma tipo de censura”: Três contextos onde o verdadeiro caráter de uma pessoa é revelado.

O Brasil passa por um momento muito difícil na sua história. Maior do que a crise política, econômica ou institucional brasileira é a crise moral. A igreja de Cristo já foi reduto de uma moral e de uma ética muito superiores aos modelos propostos pelas sociedades ou instituições, mas lamentavelmente ela também tem sido afetada pelas mesmas imoralidades e falta de ética presentes na contemporaneidade. Hoje, a cristandade não influencia mais a sociedade, mas é influenciada por ela por seus valores e contra valores. Onde a igreja se perdeu? Vários fatores contribuíram para tão grande desvio de conduta, mas certamente a falta de profundidade bíblica ocupa lugar de destaque na perda do caráter cristão. Vale observar que a crise da igreja brasileira não algo novo na história do cristianismo.

A “Europa” do fim do século XV e início do século XVI também tinha na Igreja-Estado seu reduto de moral e ética cristã. No entanto, seus valores estavam completamente deteriorados e absolutamente distantes do caráter de Cristo. Guerras, miséria, fome, grandes distorções sociais e um Estado autoritário apoiado pela igreja, colocavam em xeque o caráter cristão daqueles que falavam em nome de Deus e de um modo nunca visto antes na história. A exploração da fé foi a resposta encontrada pelo clero para manter seus privilégios. Construir a basílica de São Pedro foi a saída encontrada para superar a própria crise moral. O preço? Um sacrifício ainda maior de um povo sofrido e atemorizado pela religião que o emaçava com o inferno e o purgatório.

A Reforma Protestante foi uma reação quase “natural” a este estado de coisas. Para os reformadores a autoridade sobre a vida cristã não residia nos sacerdotes ou na tradição da igreja: “fundada por Pedro, sucessor de Jesus Cristo”. Para eles a autoridade cristã vinha da Bíblia (a Escritura). Foi neste contexto que nasceu a expressão de Sola Scriptura (só a Escritura). Para Lutero e os reformadores a Bíblia era o único parâmetro norteador do caráter e comportamento cristão porque, como afirmava: “os papas também erram”. Absolutamente convicto de seu postulado, ele só reconhecia dois modos de ser convencido acerca da fé e do caráter cristão: a razão ou a Escritura. No contexto Reforma, o comportamento que não fosse fundamentado na Bíblia não poderia ser considerado um comportamento cristão. Essa é a herança da chamada igreja evangélica que chegou até o Brasil.

Em meados dos anos de 1960 e 1970 os valores dos evangélicos brasileiros eram claramente reconhecidos. Essa minoria de cristãos era hostilizada, discriminada e até perseguida, no entanto seu caráter e sua postura ética eram inegáveis. Meio século depois o Brasil está totalmente diferente e, infelizmente, os chamados crentes também. Hoje, a Escritura não é mais o padrão de comportamento a ser seguido. Cristo, o fundador da igreja, não é mais o modelo a ser imitado. Suas palavras já não exercem autoridade sobre a vida dos crentes. Hoje, a igreja evangélica atende aos anseios de uma sociedade egoísta e hedonista. Neste sentido, ela tornou-se uma igreja de varejo onde cada grupo escolhe o que melhor lhe agrada. A proposta da Reforma não encontra eco no coração do crente contemporâneo e os valores distam, e muito, do ideal de seu fundador, o Cristo. Segundo a Escritura o cristão deveria manter-se integro é qualquer situação. Seja na maior riqueza, seja na mais absoluta pobreza, seja em algum lugar anônimo: como a Internet, por exemplo.

No atual contexto de violência, miséria e desigualdades vividos no Brasil, o comportamento cristão tem oscilado entre dois extremos: passividade ou violência. Mas Jesus, o Cristo, jamais foi violento, jamais promoveu a morte, jamais foi injusto, jamais usou seu poder em benefício próprio. Jesus, o Cristo, sempre fez aos outros aquilo gostaria que a ele fizessem, mesmo quando recebeu a injustiça e a calúnia como prêmio. Nascido no legalismo do “olho por olho e dente por dente”, Jesus, o Cristo, tornou-se um subversivo ao judaísmo que aprendeu na infância. Mais do que ensinar ele viveu situações como: “ofereça a outra face”, “bendiga os que lhe amaldiçoam”, “pague o mal com bem” etc. Foi principalmente sua vida exemplar que “contaminou” milhares de pessoas ao longo da história.

Mahatma Gandhi, um reconhecido pacifista hindu, tinha dois livros de cabeceira. A Canção Celestial (escritura hindu) e o “Sermão da Montanha” (Mateus 5-7). Certamente foi à luz do segundo que Gandhi desenvolver o conceito de luta pelo “princípio da não violência”. Os valores morais de justiça e liberdade aprendidos na Bíblia impulsionaram Martin Luther King Jr. a lutar por igualdade em seu país. Suas ações eficazes levaram a mudar a Constituição garantido os direitos civis para os negros estadunidenses. Nunca pelo ódio, nunca de modo violento a exemplo de seus antecessores, Gandhi e Jesus. Pacífico, mas não passivo. Madre Teresa de Calcutá doou toda sua vida em favor dos leprosos abandonados da Índia a partir dos ensinos de Jesus segundo Mateus 25 (o juízo do Filho do homem). À frase inquisidora de um homem muito rico: “eu não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares”, encontrou a inquietante resposta da Madre Tereza: “Eu também não. Só por amor se pode dar banho em um leproso”.  Esse tipo de motivação deveria calar fundo no coração do cristão autêntico. Esses são alguns exemplos de pessoas que jamais se conformaram a um mundo injusto é cruel sem, contudo, abandonar os princípios bíblicos em suas ações.

Certamente esses são tempos difíceis para igreja de Cristo. Tempo de grande apostasia e muito engano religioso. Tempos de muito ódio, egoísmo, indiferença, ausência de misericórdia e muita, muita hipocrisia religiosa. Na parábola do juiz injusto, que apesar de não temer a Deus atendeu o clamor da viúva, Jesus faz duas perguntas inquietantes: “Atentai à resposta do juiz da injustiça! Porventura Deus não fará plena justiça aos seus escolhidos, que a Ele clamam de dia e de noite, ainda que lhes pareça demorado em atendê-los? ... No entanto, quando o Filho do homem vier, encontrará fé em alguma parte da terra?” (Lc 18.1ss). Será que o cristão deste tempo ainda crê na plena justiça de Deus? Será que quando o Filho voltar ainda encontrará quem creia nele?

A crise moral brasileira se agrava mais a cada dia. Por um lado ela há de forjar, mais uma vez, cristãos tenazes cuja justiça é igual a de seu mestre, Jesus, o qual preferiu morrer a matar. Há de criar resiliência nessa gente que não abre mão do Evangelho legítimo. Por outro lado, essa mesma crise também há de revelar àqueles “cristãos” que em nada se diferenciam dos não-cristãos – quantas vezes mais justos e éticos que os chamados filhos da luz. Um tipo de gente que se veste como cristão, fala como cristão, cultua como cristão, mas não é cristão, porque, na verdade, nunca foi cristão de fato.

O caráter cristão precisa pautar-se na Bíblia, abandoando as paixões e juízos radicais, precisa voltar-se para justiça com misericórdia, para ação sem violência, para indignação sem ódio. Sobretudo precisa pauta-se no equilíbrio e no discernimento espiritual e não por essa ou aquela ideia de justiça (ou vingança?) imposta por uma sociedade corrupta e sem esperança. Em tempos de crise tanto maior torna-se a importância da Escritura na vida do crente. O caráter cristão em tempos de crise precisa manter-se firmado sobre a rocha e a rocha é a segurança que há nas palavras de Jesus traz.

1 de março de 2017

Uma andorinha só não faz verão - Aristóteles

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Assim como quem olha uma a andorinha migrando não imagina que o verão está chegando, um único ato de virtude não representa uma pessoa virtuosa. É na prática da vida, tanto mais nas situações difíceis, que se revela o caráter do indivíduo.

A virtude é um valor inerente a qualquer sociedade. E ela, a sociedade, exerce grande poder de influência sobre o indivíduo porque o homem, por uma questão primária de sobrevivência, necessita pertencer a um grupo. Emile Durkheim chama este poder de influência de Fatos Sociais.

Se por um lado, "o fato social, segundo Durkheim, consiste em maneiras de agir, de pensar e de sentir que exercem determinada força sobre os indivíduos, obrigando-os a se adaptar às regras da sociedade onde vivem", por outro, "nem tudo o que uma pessoa faz pode ser considerado um fato social, pois, para ser identificado como tal, tem de atender a três características: coercitividade, exterioridade e generalidade." Em outras palavras, nem todas as ações humanas são frutos do poder da sociedade, portanto, é possível uma pessoa agir, pensar e sentir diferente do grupo. – Não é fácil. É neste momento de "escape", nesse ineditismo da autenticidade humana, que se torna possível forjar a mais verdadeira individualidade.

A sociedade, tanto mais entre os mais jovens, parece viver a pungente necessidade de ser diferente. Mas diferente de quê? Diferente de quem? Diferente da maioria, diriam. No entanto, isso significa tornar-se igual a outros "diferentes", seguindo seus padrões de maneira coercitiva, ainda que não se perceba. A aparente diferença é uma igualdade a um grupo menor (talvez) constituindo pouco ou quase nada de inédito ou de individual próprio da pessoa. É sair de uma caixa para entrar em outra. – "Não existe nada de novo debaixo do sol."

Na sociedade de Jesus os valores são diferentes. Os discípulos, aqueles que nela ingressam, são assim reconhecidos quando possuem a maior de todas as virtudes: o amor. Permanecer “nas minhas palavras” é a regra, o objetivo maior é glorificar ao Pai. O agir, o pensar e o sentir de cada um devem ser capazes de influenciar a sociedade. Para estes, a vida só faz sentido porque o seu grupo social não pertence a este mundo como também não pertence o de Jesus. Sob estas perspectivas, valores e virtudes é que se põem os chamados discípulos de Cristo. Portanto, também no reino de Deus “uma andorinha só não faz verão”. É preciso viver o Evangelho todos os dias.

Nota:
Coercitividade – característica relacionada com o poder, ou a força, com a qual os padrões culturais de uma sociedade se impõem aos indivíduos que a integram, obrigando esses indivíduos a cumpri-los.
Exterioridade – quando o indivíduo nasce, a sociedade já está organizada, com suas leis, seus padrões, seu sistema financeiro, etc.; cabe ao indivíduo aprender, por intermédio da educação, por exemplo.
Generalidade – os fatos sociais são coletivos, ou seja, eles não existem para um único indivíduo, mas para todo um grupo, ou sociedade.
Fonte: http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=167

27 de fevereiro de 2017

O que é integridade à luz da Bíblia

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Valores são qualidades atribuídas a pessoas, coisas ou ações. Na antiga Grécia a coragem era um valor porque, naquele contexto de constantes disputas territoriais, essa era uma virtude desejável para se defender a pólis (a cidade), mesmo que isso significasse perder a própria vida. Segundo o professor Clóvis de Barros Filho, “valores são aquelas coisas que definem quem você é”. Para ele, quem trai os seus valores não sabe mais quem é e perde a própria identidade.
A palavra integridade deriva do Latim, intĕgrĭtās, e significa (de modo resumido): 1) aquilo que é fisicamente inteiro (corpo, território etc.); 2) aquilo que é puro sem máculas ou violações (mente, palavras, ações); 3) que tem estado perfeito (saudável) e 4) o que guarda inocência (uma vida pura). Integridade enquanto valor é algo ligado ao caráter, a probidade, a mente inteira, ao comportamento ético e as palavras que reflitam pureza: sem máculas, sem segundas intenções ou aliciamentos.
Na Bíblia não encontramos uma palavra correspondente direta de integridade: nem no hebraico nem no grego. No entanto, ante a exigência moral e ética do conceito, pode-se afirmar que a Bíblia, como um todo, carrega uma mensagem da integridade exigida e necessária a todo homem no seu relacionamento com Deus, sobretudo no Novo Testamento. O conceito de integridade está tão arraigado na Escritura que a palavra πεπληρωμένα (peplērōmena-completo, cheio até o máximo), traduzida normalmente como “perfeita”, na versão King James é traduzida como integridade. “Sê alerta! E fortalece o que ainda resta e estava prestes a morrer; porque não tenho encontrado integridade em tuas obras diante do meu Deus” (Ap 3.2).
Integridade da mente é a característica principal do cristão.  O apóstolo Paulo fala da renovação da mente onde o novo homem pensa de modo diferente do velho homem. A mente é de tal modo importante que a palavra traduzida como arrependimento é μετανοια (metanóia), mudança de mente. No Antigo Testamento guardar o coração (lebab-homem interior, mente, vontade, coração, alma) semanticamente significa guardar a mente. Em Lucas 6.45, certamente Jesus se refere a mente quando afirma: “a boca fala do que está repleto o coração”. Jesus ensinando sobre seus critérios afirma: “Se permanecerdes na minha Palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos”. O discípulo tem sua forma de pensar totalmente diferente da maneira antiga porque a Palavra permanece no seu coração.
Uma mente íntegra leva a atitudes diferentes diante das circunstâncias da vida, sobretudo nas mais conflituosas. Para o pastor Martin Luther King Junior, “a verdadeira medida de um homem não se vê na forma como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de controvérsias e desafios”. Nesse sentido, a conversão mediante o arrependimento é algo único. Ninguém se converte todos os dias. Paulo ensina que o homem, depois de convertido, renova sua mente a cada dia a partir do maior conhecimento da graça de Cristo. Um crescimento que vai da fase infantil até fase adulta quando, finalmente, esse novo homem alcança a estatura do Varão Perfeito. E para que não haja dúvidas em seus leitores, o apóstolo enumera de modo muito prático como se dão as mudanças de comportamento: Mentia, não minta mais; furtava, não furte mais; irou-se, não peque. Comportamentos necessários a não entristecer o Espírito Santo que habita em todo aquele que já aceitou Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador. Cuidadosamente ele conclui sua lista: “Não saia da vossa boca nenhuma palavra que cause destruição, mas somente a que seja útil para a edificação”.
Uma mente íntegra resulta em palavras igualmente íntegras (puras, sem malícia). Assim como em Lucas e Efésios, Tiago alerta sobre a necessidade do controle sobre a língua (as palavras). Para ele, a língua “é fogo; é um mundo de iniquidade, pode contaminar a pessoa por inteiro, e põe completamente em chamas o curso da nossa existência”. Destaca ainda o autor que todos os animais e feras se submetem a vontade do homem, mas “a língua, contudo, nenhuma pessoa consegue dominar. É um mal incontrolável, cheia de veneno mortal”. E, por que não consegue dominar? Porque o coração está cheio de ... Tiago argumenta com aqueles que imaginam ser possíveis as contradições intencionais acerca das palavras boas e más (sem integridade): “Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus queridos irmãos, isso não está certo!”
Todavia, silenciar não é necessariamente “controlar” a língua. Para a psicóloga e jornalista Maria Rita Kehl, “quando um processo que nem ao menos é justo, é conduzido por interesses inconfessáveis, mas que todo mundo mais ou menos já sabe, então se cria uma espécie de capa de cinismo que encobre os processos sociais”. Ou seja, faz-se um “Pacto do Cinismo” onde todos, sabendo que está errado, mantém o silêncio diante da injustiça. Neste mesmo sentido o pastor Luther King classifica esse cinismo de “o silêncio dos bons”. Para ele “quem aceita o mal sem protestar, coopera com ele.” Nesse silêncio, a falta de integridade revela-se tão nociva quanto falta de integridade no falar. Por isso, Tiago assevera: “Refleti sobre isto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado.”
Portanto, integridade, enquanto um valor cristão, passa pelos conceitos éticos, morais, sociais e psicológicos das chamadas ciências humanas, no entanto, supera estes conceitos em muito. Porque, em Cristo, o homem é transformado totalmente e, à medida que vai crescendo na graça e no conhecimento de Deus, aperfeiçoa (renova) o que já foi mudado no mais profundo do seu ser. Uma mente íntegra, pura, proba, reta, digna, inteira e integrada à mente de Cristo implica em ações coerentes com a mudança ocorrida na alma. De igual modo, o falar e o calar refletem uma mente íntegra. É verdade que a religiosidade pode moldar comportamentos e palavras sem que haja uma mudança interior verdadeira. Mas, isso, só compete a Deus saber. Por outro lado, se o comportamento e as palavras não são as de Cristo é muito difícil afirmar uma integridade cristã ocorrida no interior do homem. Se a filosofia afirma que sem valores o homem perde sua própria identidade, o cristianismo assegura que sem valores cristãos este perde a identidade de Cristo. Talvez o apóstolo Paulo tenha sido quem melhor definiu o conceito integridade sob a ótica de Jesus. “Fui crucificado juntamente com Cristo. E, desse modo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”.
Que a nossa natureza morra e germine a natureza de Cristo em nós. No pensar, no agir e no falar.

OBS: Este texto foi escrito especialmente para a Igreja Batista do Méier(revista Pensar 14, pg 20). Para conhecer mais sobre os valores da igreja clique aqui.

25 de agosto de 2016

Alguma coisa está muito errada com esse nosso Evangelho!

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Era madrugada e, antes retornarmos, decidimos parar pela primeira vez naquela calçada. De repente, alguém do grupo nos chamou para orarmos por Lorelaine (nome fictício), uma jovem gestante.

– Para quando é esse bebê?

– Para o mês que vem, respondeu-me com um sorriso aberto.

Ela parecia animada com a chegada da criança enquanto eu, pai de duas meninas, mal pude disfarçar minha preocupação.

– Onde ele vai nascer?

– No Carmela Dutra, disse ela cheia de confiança e sorridente.

Sem mais, oramos pela vida da mãe e do bebê pedindo ao Senhor que tudo corresse bem para ambos. Terminada a oração, ela nos agradeceu, se afastou um pouco e foi deitar no seu papelão cobrindo a cabeça com um cobertor. Alguém do nosso grupo, que conversava com ela há mais tempo, comentou: “Vai dormir feliz hoje porque está com a barriga cheia”.

Lorelaine foi a última pessoa com quem falamos naquela madrugada e, talvez por isso, a lembrança daquele encontro esteja tão viva. A imagem de uma jovem feliz pelo alimento de uma noite; animada com a chegada do filho e; tranquila ao deitar-se, ali, no papelão, protegida por um simples cobertor, dividindo o espaço com outros que fazem da calçada o seu quarto.

Muitas são as razões e experiências que levam as pessoas a viverem nas ruas do Rio de Janeiro. No entanto, momentos como estes são chocantes, mesmo quando a pessoa se sente feliz e tranquila. É o tipo de experiência que deixa marcas profundas no nosso coração. Não consigo parar de pensar naquela jovem gestante e no futuro provável que dará ao seu filho: viver nas ruas dependendo da caridade dos outros.

Das tantas perguntas ou respostas possíveis às situações desse tipo, uma é demasiada incômoda. O que será que está errado com esse nosso Evangelho? Porque sobre uma coisa não há qualquer sombra de dúvida: esse Evangelho que pregamos não está fazendo diferença, ou fazendo muito pouca, na sociedade em que vivemos.

“Então, dirá o Rei a todos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, abençoados de meu Pai! Recebei como herança o Reino, o qual vos foi preparado desde a fundação do mundo. Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes.” (Mt 25.34-35)

10 de agosto de 2016

No inferno não existe amor

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Impedidos de seguir viagem por causa da forte tempestade, um casal, um rico empresário e duas jovens encontram refúgio numa lanchonete na beira da estrada. Jesus, o proprietário, sempre dá duas opções de refeição aos clientes: o cardápio ou oferta especial. Na segunda opção, ele afirma saber exatamente o que as pessoas desejam comer e se acertar o cliente não irá pagar pelo que consumir.

No filme, O caminho para eternidade, Jesus vai tratando o drama de cada um à medida que vai preparando as refeições.

Nike, o mais resistente, acusa Jesus de obrigar as pessoas a fazerem a sua vontade e não as delas, quando decidem segui-lo: “mas só nos seu termos ... isso é chantagem”, afirma o empresário. O trecho do filme abaixo apresenta o desfecho desta conversa.

31 de maio de 2016

Se quiseres

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"Quando oramos ao Pai e dizemos:  'Seja feita a sua vontade', não é falta de fé, é falta de conhecimento, pois não tenho conhecimento do futuro, mas Deus sabe o melhor e a vontade Dele é perfeita.  Que seja feita a tua vontade!' (Pr Joed Venturini)

A mensagem de "feliz ano novo" diferente e a lembrança de um amigo mais chegado que um irmão. Para mim um exemplo a ser seguido.





26 de março de 2016

O Nobel da paz: Porque todo mundo pode mudar

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Alfred Bernhard Nobel nasceu em 21 de outubro de 1833, em Estocolmo, Suécia, em uma família de engenheiros. Ele foi químico, engenheiro e inventor. Nobel acumulou uma fortuna durante a sua vida, a maior parte dela como resultado das suas 355 invenções, das quais a dinamite é a mais famosa. Numa manhã de 1888 ele ficou surpreso ao ler o próprio obituário em um jornal francês intitulado: "O mercador da morte está morto". O jornal confundiu Nobel com seu irmão, Alfred Ludvig, que realmente havia falecido. O artigo desconcertado fê-lo refletir sobre como seria lembrado inspirando-o a mudar sua vontade.

Nobel deixou uma herança de 32 milhões de coroas e escreveu vários testamentos em vida. O último, em 1895, para o espanto generalizado, determinava a criação de uma instituição à qual caberia recompensar, a cada ano, aqueles que conferem "maior benefício à humanidade" nos campos da paz ou da diplomacia, literatura, química, fisiologia ou medicina e física. O testamento estabelecia também que a nacionalidade das pessoas não seria considerada na atribuição do prêmio. Nobel legou 94% de seus ativos totais, 31 milhões de coroas suecas, para estabelecer os cinco prêmios Nobel.

No Rio, os resultados dos exames feitos pelo governador, Luiz Fernando Pezão, mostraram que ele tem linfoma não-Hodgkin. O tipo de linfoma diagnosticado nos exames é o anaplásico de grandes células T-ALK positivo que, segundo os médicos, é um dos mais agressivos, mas totalmente curável. O governador não vai passar por nenhuma intervenção cirúrgica, a não ser a colocação de um cateter para receber a medicação. O oncologista Daniel Tabak explicou: “o dado mais importante é que não existe nenhum comprometimento volumoso de linfonodomegalias. Não atingiu nenhum órgão crítico. Por isso, temos uma perspectiva boa. Mais de 70% dos pacientes ficam curados com este tipo de tratamento.”

O governador também está otimista e afirmou durante a coletiva: "Tem coisas piores na vida. Tem coisas que Deus dá para a gente porque sabe que somos capazes de carregar. Eu sei que vou passar por isso daí e vou acabar mais forte."

Considerando a situação atual do país, em particular a do Estado do Rio de Janeiro, pode ser que Deus não esteja dando algo que ele “seja capaz de carregar”, mas, sim, uma segunda chance ao governador, assim como fez com Alfred Nobel. Quem sabe não seja o momento dele refletir sobre o legado que deixaria para história do povo fluminense, se a sua própria história se encerrasse de repente. Embora as perspectivas sejam favoráveis, sempre há o risco do insucesso. Diante da fragilidade da vida, o Pezão talvez possa ser mais Luiz com os Luizes, Joãos e Marias, que dependem da saúde pública (dever do Estado e cujo representante é ele), tornando-se mais sensível à dor do outro.

Que a saúde do governador do segundo maior estado do país se reestabeleça e que, com ela, haja uma mudança na sua forma de pensar. Que ele seja mais humano com os que sofrem, valorize o serviço público porque é prestado àqueles que não têm como pagar um tratamento como ele tem, e, finalmente, tenha a coragem de romper com os tentáculos inescrupulosos dos velhos aliados de campanha. Que ele possa, como Nobel, surpreender a todos e reescrever sua história, quem sabe mais bela, para posteridade. Porque Deus sempre dá a cada pessoa ao menos uma oportunidade de mudar.

5 de março de 2016

Orações que Deus ouve

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Outro dia fiquei desconfortável com uma oração feita em favor dos nossos pequeninos, algo bastante frequente entre nós.
 " ... Pai, protege os nossas crianças da violência, da maldade deste mundo etc."
Estava atento quando, de repente, senti como quem "ouve" uma voz ...

Pai de duas meninas quase chorei, não só por elas, diante deste mundo mal. Pensei, antes, nas tantas crianças abandonadas a própria sorte nas calçadas e marquises das ruas da cidade. Confesso, me senti tão egoísta com aquela oração.

Com a voz embargada murmurei:  "Pai, proteja, primeiro, as crianças abandonadas nas ruas, com fome, com frio e com medo da violência e, se possível, livra as nossas de tão vil destino."

8 de janeiro de 2016

Martin Luther King Jr: Carta de uma prisão em Birmingham

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Meus caros amigos clérigos, Durante meu confinamento aqui na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com sua declaração recente chamando minhas atividades atuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente paro para responder a críticas do meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que não para essas correspondências no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que suas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder a sua declaração em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Acho que devo mencionar por que estou aqui em Birmingham, já que vocês foram influenciados pela visão que se opõe aos “forasteiros invasores”. Tenho a honra de servir como presidente da Conferência Sulista de Liderança Cristã (Southern Christian Leadership Conference), uma organização que opera em todos os estados sulistas, com sede em Atlanta, Geórgia. Temos cerca de oitenta organizações filiadas por todo o Sul, e uma delas é o Movimento Cristão pelos Direitos Humanos do Alabama (Alabama Christian Movement for Human Rights). Frequentemente, compartilhamos pessoal, recursos educacionais e financeiros com nossos afiliados. Muitos meses atrás, a afiliada aqui em Birmingham pediu-nos para ficar de sobreaviso para tomarmos parte em um programa de ação direta e pacífica, se isso fosse considerado necessário. Nós prontamente concordamos, e, quando o momento chegou, honramos nossa promessa. Assim, eu, junto a vários membros do meu pessoal, estou aqui porque fui convidado. Estou aqui porque tenho vínculos organizacionais aqui.

No entanto, mais fundamentalmente, estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do século VIII A.C. abandonaram suas vilas e levaram seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao chamado macedônio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos em uma rede inescapável de mutualidade, atados em um único laço do destino. Algo que aja sobre alguém diretamente age sobre todos indiretamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.

Vocês deploram as manifestações que estão ocorrendo em Birmingham. Mas sua declaração, sinto dizer, deixa de expressar preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho certeza de que nenhum de vocês gostaria de descansar contente com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam ocorrendo em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: coleta dos fatos para determinar se existem injustiças; negociação; auto-purificação; e ação direta. Efetuamos todos esses passos em Birmingham. Não pode haver nenhum ganho em enunciar o fato de que a injustiça racial engole essa comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. Sua feia história de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais bombardeios não solucionados de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os fatos duros e brutais do caso. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas os últimos recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa fé.

Então, no último mês de setembro, surgiu a oportunidade de falar com os líderes da comunidade econômica de Birmingham. No decorrer das negociações, certas promessas foram feitas pelos comerciantes – por exemplo, de remover os sinais raciais humilhantes das lojas. Com base nessas promessas, o reverendo Fred Shuttlesworth e os líderes do Movimento Cristão pelos Direitos Humanos de Alabama acordaram uma interrupção das manifestações. Com o passar de semanas e meses, percebemos que éramos as vítimas de uma promessa quebrada. Alguns sinais, removidos por pouco tempo, retornaram; outros permaneceram. Como em muitas outras experiências anteriores, nossas esperanças tinham sido destruídas, e a sombra de uma decepção profunda caiu sobre nós. Não tínhamos alternativa a não ser nos prepararmos para a ação direta, por meio da qual exibiríamos nossos próprios corpos como um meio de apresentar nossa causa à consciência das comunidades local e nacional. Cientes das dificuldades envolvidas, decidimos empreender um processo de auto-purificação. Iniciamos uma série de oficinas sobre o pacifismo, e repetidamente nos perguntávamos: “Vocês são capazes aceitar golpes sem retaliar?” “Vocês são capazes de resistir à provação da cadeia?” Decidimos marcar nosso programa de ação direta no período de Páscoa, percebendo que, exceto pelo Natal, é o principal período de compras do ano. Sabendo que um programa vigoroso de retração econômica seria o efeito colateral da ação direta, sentimos que esse seria o melhor momento para aplicar uma pressão sobre os comerciantes em prol da mudança necessária.

Então, demo-nos conta de que a eleição para prefeito de Birmingham ocorreria em março, e rapidamente decidimos postergar a ação para depois do dia de eleição. Quando descobrimos que o Comissário de Segurança Pública, Eugene “Touro” Connor, havia reunido votos suficientes para ir ao segundo turno, decidimos mais uma vez postergar a ação para depois do dia do segundo turno, para que as manifestações não pudessem ser usadas para obscurecer os temas. Como muitos outros, esperávamos ver a derrota do Sr. Connor, e com esse fim aguentamos adiamento após adiamento. Tendo ajudado nessa necessidade da comunidade, sentimos que nosso programa de ação direta não poderia mais ser atrasado.

Vocês podem muito bem perguntar: “Por que ação direta? Por que sit-ins, marchas e assim por diante? Não seria a negociação um caminho melhor?” Vocês estão bastante certos em clamar por negociações. Na verdade, esse é o real propósito da ação direta. A ação direta pacífica busca criar uma tal crise e promover uma tal tensão que a comunidade que constantemente se recusou a negociar é forçada a confrontar o tema. Ela busca, assim, dramatizar um tema que não pode mais ser ignorado. Minha referência à criação de tensão como parte do trabalho do resistente pacífico pode soar um tanto chocante. Mas devo confessar que não tenho medo da palavra “tensão”. Opus-me veementemente à tensão violenta, mas há um tipo de tensão construtiva, pacífica, que é necessária para o crescimento. Assim como Sócrates sentiu que era necessário criar uma tensão na mente para que os indivíduos pudessem ascender da servidão de mitos e de meias verdades ao reino livre de amarras da análise criativa e da avaliação objetiva, também nós temos de ver a necessidade de impertinentes pacíficos para criar o tipo de tensão na sociedade que ajudará os homens a ascenderem das escuras profundezas do preconceito e do racismo às alturas majestosas da compreensão e da fraternidade. O propósito de nosso programa de ação direta é criar uma situação tão recheada de crise que inevitavelmente abrirá as portas à negociação. Eu, portanto, concordo com vocês no seu clamor por negociações. Nossas amadas terras do Sul têm estado atoladas por tempo demais em um trágico esforço para viver em um monólogo ao invés de em um diálogo.

Um dos pontos fundamentais em sua declaração é o de que a ação que eu e meus associados tomamos em Birmingham é inoportuna. Alguns perguntaram: “Por que vocês não deram à nova administração da cidade tempo para agir?” A única resposta que posso dar a essa indagação é que a nova administração de Birmingham tem de ser incitada tanto quanto a que está de saída, antes que ela aja. Estaremos tristemente enganados se sentirmos que a eleição de Albert Boutwell como prefeito trará uma época de ouro a Birmingham. Embora o Sr. Boutwell seja uma pessoa muito mais tolerante do que o Sr. Connor, ambos são segregacionistas, dedicados à manutenção do status quo. Tenho esperança em que o Sr. Boutwell será razoável o bastante para notar a futilidade de uma resistência ampla ao fim da segregação. Mas ele não notará isso sem a pressão dos partidários dos direitos civis. Meus amigos, tenho de dizer a vocês que não obtivemos um único ganho em direitos civis sem uma firme pressão legal e pacífica. Lamentavelmente, é um fato histórico que grupos privilegiados raramente renunciam aos seus privilégios por vontade própria. Indivíduos podem ver a luz da moral e renunciar voluntariamente às suas posturas injustas; mas, como Reinhold Niebuhr lembrou-nos, grupos tendem a ser mais imorais do que indivíduos.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em uma campanha de ação direta que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre significou “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Esperamos por mais de 340 anos por nossos direitos constitucionais e concedidos por Deus. As nações da Ásia e da África estão dirigindo-se com uma velocidade a jato rumo à conquista da independência política, mas nós ainda nos arrastamos a passo de cavalo e de charrete rumo à conquista de uma xícara de café em um aparador. Talvez seja fácil àqueles que nunca sentiram os dardos perfurantes da segregação dizer “espere”. Mas quando você viu bandos perversos lincharem suas mães e pais à vontade e afogar suas irmãs e irmão a seu capricho; quando você viu policiais cheios de ódio amaldiçoarem, chutarem e até matarem seus irmãos e irmãs negros; quando você vê a vasta maioria de seus vinte milhões de irmãos negros sufocando-se em uma jaula hermética da pobreza em meio a uma sociedade de abundância; quando você de repente descobre sua língua travada e sua fala gaga ao tentar explicar a sua irmã de seis anos de idade por que ela não pode ir ao parque de diversões público cuja propaganda acabou de passar na televisão, e vê lágrimas jorrando dos olhos dela quando lhe é dito que o Funtown está fechado para crianças de cor, e vê ameaçadoras nuvens de inferioridade começando a se formar no pequeno céu mental dela, e a vê começar a distorcer sua personalidade ao desenvolver um rancor inconsciente contra as pessoas brancas; quando você tem de inventar uma resposta a um filho de cinco anos de idade que está perguntando: “papai, por que as pessoas brancas tratam as pessoas de cor tão mal?”; quando você faz uma viagem através de seu estado e descobre ser necessário dormir noite após noite nos cantos desconfortáveis de seu carro porque nenhum motel o aceita; quando você é humilhado entra dia sai dia por sinais irritantes dizendo “branco” e “de cor”; quando seu prenome torna-se “neguinho”, seu nome do meio torna-se “menino” (não importa sua idade) e seu sobrenome torna-se “John”, e sua mulher e mãe nunca são chamadas pelo título respeitável de “Sras.”; quando você é perseguido de dia e assombrado à noite pelo fato de que você é um negro, vivendo constantemente na ponta dos pés, sem saber exatamente o que esperar em seguida, e é atormentado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando você está sempre lutando contra uma impressão degradante de “não ser ninguém” – então você entenderá porque achamos difícil esperar. Chega um momento em que a capacidade de suportar esgota-se, e os homens não estão mais dispostos a mergulhar no abismo do desespero. Espero, senhores, que vocês possam compreender nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês manifestam uma boa dose de ansiedade quanto à nossa disposição de violar as leis. Essa é certamente uma preocupação legítima. Como nós exortamos tão ativamente as pessoas a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte que baniu a segregação em escolas públicas, à primeira vista pode parecer um tanto paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Também se poderia perguntar: “Como vocês podem advogar a violação de certas leis e a obediência a outras?” A resposta está no fato de que existem dois tipos de leis: as justas e as injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. Tem-se uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. De modo contrário, tem-se uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade. Ela dá ao segregador uma falsa impressão de superioridade e aos segregados, uma falsa impressão de inferioridade. A segregação, para usar a terminologia do filósofo judeu Martin Buber, substitui uma relação “eu-você” por uma relação “eu-isso” e acaba por relegar pessoas à condição de coisas. Portanto, a segregação não é apenas política, econômica e sociologicamente doentia: é moralmente errada e pecaminosa. Paul Tillich disse que o pecado é uma separação. A segregação não é uma expressão existencial da trágica separação do homem, da sua horrível alienação, da sua terrível pecaminosidade? Sendo assim, posso exortar os homens a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte, porque ela é moralmente correta; e posso exortá-los a desobedecerem a normas segregacionistas, porque elas são moralmente erradas.

Consideremos um exemplo mais concreto de leis justas e injustas. Uma lei injusta é um código que um grupo majoritário em termos de poder ou de número compele um grupo minoritário a obedecer, mas ao qual não se sujeita. Isso é a diferença tornada legal. Pela mesma razão, uma lei justa é um código que uma maioria compele uma minoria a seguir e que ela própria está disposta a seguir. Isso é a igualdade tornada legal. Deixe-me fazer outro esclarecimento. Uma lei é injusta se for imposta a uma minoria que, por ter o direito de votar negado a si, não participou da decretação ou da criação da lei. Quem pode dizer que o parlamento do Alabama que constituiu as leis segregacionistas daquele Estado foi democraticamente eleito? Por todo o Alabama, todos os tipos de métodos tortuosos foram usados para impedir os negros de tornarem-se eleitores registrados, e há alguns municípios em que, embora os negros componham a maioria da população, um negro sequer está registrado. Qualquer lei decretada sob essas circunstâncias pode ser considerada democraticamente estruturada?

Às vezes, uma lei é justa no papel e injusta na sua aplicação. Por exemplo, fui preso por uma acusação de fazer uma passeata sem autorização. Agora, não há nada de errado em existir uma norma que exija uma autorização para uma passeata. Mas essa norma torna-se injusta quando é usada para manter a segregação e negar a cidadãos o direito fundamental da primeira emenda à Constituição de reunião pacífica e de protesto.

Espero que vocês sejam capazes de observar a distinção que estou tentando mostrar. De modo algum, defendo a evasão e o desafio à lei, como faria o segregacionista furioso. Isso levaria à anarquia. Alguém que viole uma lei injusta tem de fazê-lo abertamente, amorosamente, e com disposição para aceitar a pena. Argumento que um indivíduo que viola uma lei que a consciência lhe diz que é injusta, e que aceita de bom grado a pena de prisão a fim de despertar a consciência da comunidade quanto à sua injustiça, está na verdade exprimindo o mais elevado respeito à lei.

Obviamente, não há nada de novo nessa forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante do talho a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade acadêmica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um ato imponente de desobediência civil.

Nunca devemos nos esquecer de que tudo que Adolf Hitler fez na Alemanha era “legal” e tudo que os combatentes húngaros da liberdade fizeram na Hungria era “ilegal”. Era “ilegal” ajudar e confortar um judeu na Alemanha de Hitler. Ainda assim, tenho certeza de que, se tivesse vivido na Alemanha naquele tempo, teria ajudado e confortado meus irmãos judeus. Se vivesse hoje em um país comunista onde certos princípios caros à fé cristã foram suprimidos, defenderia abertamente a desobediência às leis antirreligiosas do país.

Tenho de fazer duas confissões sinceras a vocês, meus irmãos cristãos e judeus. Primeiro, tenho de confessar que ao longo dos últimos anos decepcionei-me seriamente com os brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que a maior pedra no caminho dos negros em seu avanço rumo à liberdade não é o White Citizen’s Counciler ou o membro da Ku Klux Klan, mas os brancos moderados, que são mais zelosos da “ordem” do que da justiça; que preferem uma paz negativa que é a ausência de tensão a uma paz positiva que é a presença da justiça; que dizem constantemente: “concordo com vocês quanto ao objetivo que buscam, mas não posso concordar com seus métodos de ação direta”; que acreditam paternalisticamente que podem fixar o cronograma para a liberdade de outro homem; que vivem sob um conceito mítico do tempo e que constantemente aconselham o negro à espera por uma “época mais apropriada”. A compreensão superficial de pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão completa de pessoa de má vontade. A aceitação morna é muito mais atordoante do que a rejeição total.

Eu tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a lei e a ordem existem para o propósito de estabelecer a justiça e que quando fracassam nesse propósito tornam-se represas estruturadas perigosamente que bloqueiam o curso do progresso social. Tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a atual tensão no sul é uma fase necessária da transição de uma detestável paz negativa, em que os negros passivamente aceitavam suas injustas situações difíceis, para uma paz positiva e substantiva, em que todos os homens respeitarão a dignidade e o valor da personalidade humana. Na realidade, nós que nos envolvemos em ações diretas pacíficas não somos os criadores da tensão. Tão-somente trazemos à superfície a tensão oculta que já existe. Descortinamo-la, para que possa ser vista e tratada. Como um furúnculo que não pode ser curado enquanto estiver coberto, mas que deve ser exposto com toda a sua feiura aos remédios naturais do ar e da luz, a injustiça tem de ser desvendada, com toda a tensão que sua exposição gera, à luz da consciência humana e ao ar da opinião nacional, antes que possa ser curada.

Em sua declaração, vocês afirmam que nossas ações, embora pacíficas, devem ser condenadas porque precipitam a violência. Mas essa é uma afirmação lógica? Isso não equivale a condenar um homem roubado porque sua posse de dinheiro precipitou o ato mau do roubo? Isso não equivale a condenar Sócrates porque seu compromisso inabalável com a verdade e suas investigações filosóficas precipitaram o ato do povo mal orientado pelo qual o fizeram beber a cicuta? Isso não equivale a condenar Jesus porque sua singular consciência divina e devoção inesgotável à vontade de Deus precipitaram o ato mau da crucificação? Devemos notar que, como os tribunais federais consistentemente afirmaram, é errado incitar um indivíduo a interromper seus esforços para obter seus direitos constitucionais básicos porque a jornada pode precipitar a violência. A sociedade tem de proteger o roubado e punir o ladrão. Também tinha tido esperanças de que os brancos moderados rejeitariam o mito concernente ao tempo em relação à luta pela liberdade. Recebi há pouco uma carta de um irmão branco do Texas. Ele escreve: “Todos os cristãos sabem que as pessoas de cor um dia receberão direitos iguais, mas é possível que vocês estejam com uma pressa religiosa grande demais. A cristandade precisou de quase dois mil anos para alcançar o que tem hoje. Os ensinamentos de Cristo demoram a chegar a Terra.” Essa concepção decorre de um trágico conceito errôneo do tempo, da noção estranhamente irracional de que há algo no próprio curso do tempo que inevitavelmente curará todos os males. Na realidade, o tempo em si é neutro; pode ser usado quer destrutivamente, quer construtivamente. Cada vez mais, sinto que as pessoas de má vontade usam o tempo de modo muito mais eficaz do que as pessoas de boa vontade. Nós nos arrependeremos, no tocante a essa geração, não apenas das palavras e ações odiáveis das pessoas más, como também do silêncio espantoso das pessoas boas. O progresso humano nunca advém da roda da inevitabilidade; ele deflui dos incansáveis esforços de homens dispostos a serem colegas de trabalho de Deus, e, sem esse trabalho duro, o próprio tempo torna-se um aliado das forças da estagnação social. Temos de usar o tempo criativamente, com base no conhecimento de que o tempo sempre está pronto para fazer o certo. Agora é a hora de tornar real a promessa de democracia e de transformar nossa iminente elegia nacional em um criativo salmo da fraternidade. Agora é a hora de alçar nossa política nacional da areia movediça da injustiça racial à sólida rocha da dignidade humana.

Vocês falam de nossa atividade em Birmingham como extrema. A princípio, fiquei um pouco decepcionado com o fato de amigos clérigos considerarem meus esforços pacíficos como os de um extremista. Comecei a pensar sobre o fato de que me situo no meio de duas forças opostas na comunidade negra. Uma é a força da complacência, composta em parte por negros que, como resultado de longos anos de opressão, estão tão carentes de amor-próprio e da sensação de “ser alguém” que se adaptaram à segregação; e em parte de alguns negros de classe média que, devido a certo grau de segurança acadêmica e econômica e porque se beneficiam de algum modo da segregação, tornaram-se insensíveis aos problemas das massas. A outra é uma força da amargura e do ódio, que chega perigosamente perto de defender a violência. Manifesta-se em vários grupos nacionalistas negros que estão brotando por todo o país, sendo o maior e mais conhecido o movimento islâmico de Elijah Muhammad. Alimentado pela frustração dos negros pela existência contínua da discriminação racial, esse movimento é composto de pessoas que perderam a fé nos Estados Unidos, que repudiaram completamente o cristianismo e que concluíram que o homem branco é um “demônio” incorrigível.

Tentei me situar entre essas duas forças, dizendo que não precisamos imitar nem a inação dos complacentes nem o ódio e o desespero dos nacionalistas negros. Porque existe a maneira muito melhor do amor e do protesto pacífico. Sou grato a Deus por, mediante a influência da igreja negra, a maneira do pacifismo ter-se tornado uma parte essencial de nossa luta. Se essa filosofia não tivesse surgido, muitas ruas do sul estariam agora, tenho certeza, com rios de sangue. Estou ainda mais certo de que, se nossos irmãos brancos repudiarem aqueles de nós que empregam ações diretas pacíficas como “um bando de inflamados” ou “forasteiros agitadores”, e se se recusarem a apoiar nossos esforços pacíficos, milhões de negros buscarão, por frustração e desespero, consolo e segurança em ideologias nacionalistas negras – uma evolução que inevitavelmente levaria a um assustador pesadelo racial.

Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. A ânsia pela liberdade por fim manifesta-se, e foi isso que aconteceu com o negro americano. Algo em seu interior lembrou-lhe de seu direito inato à liberdade, e algo exterior lembrou-lhe que ele pode ser obtido. Consciente ou inconscientemente, ele foi apanhado pelo espírito da época, e com seus irmãos negros da África e seus irmãos amarelos e pardos da Ásia, da América do Sul e do Caribe, o negro dos Estados Unidos está se movendo com uma sensação de incrível urgência rumo à terra prometida da justiça racial. Ao reconhecer-se esse anseio vital que se apoderou da comunidade negra, entende-se prontamente por que manifestações públicas estão ocorrendo. O negro tem muitos ressentimentos reprimidos e frustrações latentes, e ele precisa libertá-los. Então, deixe-o marchar; deixe-o fazer peregrinações pias às prefeituras; deixe-o ir em viagens pela liberdade – e tente entender por que ele tem de fazê-lo. Se suas emoções reprimidas não forem liberadas de maneiras pacíficas, buscarão expressão por meio da violência; isso não é uma ameaça, mas um fato histórico. Assim, não disse ao meu povo: “livre-se de seu desgosto”. Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a ação direta pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação do rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ame seus inimigos, abençoe aqueles que te amaldiçoam, faça o bem àqueles que te odeiam e reze por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amos um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca para”? Não era Paulo um extremista do evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”? Não era Martinho Lutero um extremista: “Aqui estou; não tenho alternativa, então que Deus me ajude”? E John Bunyan: “Ficarei na prisão até o fim dos meus dias, até que faça da minha consciência um matadouro”? E Abraham Lincoln: “Esse país não pode sobreviver metade escravo e metade livre”? E Thomas Jefferson: “Temos essas verdades como auto-evidentes, de que todos os homens nascem iguais...”? Assim, a questão não é se seremos extremistas, mas que tipo de extremistas seremos. Seremos extremistas do ódio ou do amor? Seremos extremistas da preservação da injustiça ou da extensão da justiça? Naquela cena dramática do Calvário, três homens foram crucificados. Nunca devemos nos esquecer de que todos os três foram crucificados pelo mesmo crime – o crime de extremismo. Dois eram extremistas da imoralidade e, assim, estavam abaixo dos demais. O outro, Jesus Cristo, era um extremista do amor, da verdade e do bem, e, por conseguinte, ergueu-se acima dos demais. Talvez o sul, o país e o mundo estejam com uma terrível carência de extremistas criativos.

Tivera esperança de que os brancos moderados notariam essa carência. Talvez estivesse otimista demais; talvez esperasse demais. Suponho que deveria ter percebido que poucos membros da raça opressora podem compreender os graves gemidos e os anseios apaixonados da raça oprimida, e que menos ainda têm a perspicácia para notar que a injustiça tem de ser extirpada por ações fortes, persistentes e determinadas. Sou grato, contudo, pelo fato de que alguns de nossos irmãos brancos do sul alcançaram o significado dessa revolução social e empenharam-se nela. Eles ainda são muito poucos em quantidade, mas são muitos em qualidade. Alguns – como Ralph McGill, Lillian Smith, Harry Golden, James McBride Dabbs, Ann Braden e Sarah Patton Boyle – escreveram sobre nossa luta em termos eloquentes e proféticos. Outros marcharam conosco por ruas sem nome do sul. Debilitaram-se em prisões imundas, infestada por baratas, sofrendo os abusos e a brutalidade de policiais que os veem como “sujos amantes dos negros”. Diferentemente de tantos de seus irmãos e irmãs moderados, reconheceram a urgência do momento e sentiram a necessidade de poderosos antídotos “de ação” para combater a doença da segregação. Deixem-me tomar nota de minha outra grande decepção. Decepcionei-me tão imensamente com a igreja branca e suas lideranças. É claro, há algumas notáveis exceções. Não me esqueço do fato de que cada um de vocês tomou algumas posições significativas nesse tema. Louvo-o, reverendo Stallings, pela sua postura cristã no último domingo, ao receber negros nos seus serviços de devoção de maneira não-segregacionista. Louvo os líderes católicos desse Estado por terem integrado o Spring Hill College muitos anos atrás.

Mas, apesar dessas notáveis exceções, tenho de sinceramente reiterar que me decepcionei com sua igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo errado na igreja. Digo isso como um sacerdote do evangelho, que ama a igreja; que foi acalentado em seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida estender-se.

Quando fui de repente catapultado à liderança do protesto dos ônibus em Montgomery, Alabama, há alguns anos, achei que seríamos apoiados pela igreja branca. Achei que os sacerdotes, os padres e os rabinos brancos do sul estariam entre os nossos mais firmes aliados. Ao contrário, alguns foram completos oponentes, recusando-se a compreender o movimento pela liberdade e deturpando seus líderes; muitos outros foram mais cautelosos do que corajosos e permaneceram mudos atrás da segurança anestesiante das janelas de vitral.

A despeito de meus sonhos despedaçados, vim a Birmingham com a esperança de que a liderança religiosa branca dessa comunidade veria a justiça de nossa causa e, com profunda preocupação moral, serviria como canal através do qual nossas justas queixas alcançariam a estrutura do poder. Tivera esperança de que cada um de vocês compreenderia. Mas, de novo, decepcionei-me.

Ouvi numerosos líderes religiosos sulistas admoestarem seus devotos a cumprir a decisão contra a segregação porque é a lei, mas ansiei por ouvir sacerdotes brancos declararem: “Sigam esse decreto porque a integração é moralmente correta e porque o negro é seu irmão.” Em meio a barulhentas injustiças infligidas sobre o negro, observei membros da igreja permanecerem à distancia e declamarem irrelevâncias pias e platitudes carolas. Em meio a uma vigorosa luta para livrar nosso país da injustiça racial e econômica, ouvi muitos sacerdotes dizerem: “Esses são temas sociais, com os quais o evangelho não tem nenhuma preocupação real”. E vi muitas igrejas empenharem-se numa religião completamente de outro mundo que faz uma estranha e não-bíblica distinção entre o corpo e a alma, entre o sagrado e o secular.

Viajei acima e abaixo por Alabama, Mississipi e todos os outros estados sulistas. Em dias sufocantes de verão e manhãs revigorantes de outono, contemplei as lindas igrejas do sul, com seus cumes majestosos apontados em direção aos céus. Admirei os perfis impressionantes dos amplos edifícios de educação religiosa. Repetidamente, peguei-me perguntando: “Que tipo de pessoa ora aqui? Quem é seu Deus? Onde estavam suas vozes quando dos lábios do governador Barnett respingaram palavras de interposição e nulificação? Onde elas estavam quando o governador Wallace deu um toque de clarim em favor do desafio e do ódio? Onde estavam suas vozes de apoio quando homens e mulheres negros, feridos e exaustos, decidiram levantar-se dos calabouços escuros da complacência até as colinas claras do protesto criativo?”

Sim, essas perguntas ainda estão na minha mente. Em decepção profunda, chorei pela frouxidão da igreja. Mas estejam certos de que minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Houve um tempo em que a igreja era bastante ponderosa – no tempo em que os primeiros cristãos regozijavam-se por ser considerados dignos de ter sofrido por aquilo em que acreditavam. Naqueles dias, a igreja não era apenas um termômetro que registrava as idéias e princípios da opinião pública; era um termostato que transformava os costumes da sociedade. Quando os primeiros cristãos entravam em uma cidade, as pessoas no poder ficavam transtornadas e imediatamente buscavam condenar os cristãos por serem “perturbadores da paz” e “forasteiros agitadores”. Mas os cristãos prosseguiam, com a convicção de que eram “uma colônia do céu”, que devia obediência a Deus e não ao homem. Pequenos em número, eram grandes em compromisso. Eles eram intoxicados demais por Deus para serem “astronomicamente intimidados”. Com seu esforço e exemplo, puseram um fim em maldades antigas como o infanticídio e duelos de gladiadores. As coisas são diferentes agora. Com tanta frequência a igreja contemporânea é uma voz fraca, ineficaz com um som incerto. Com tanta frequência é uma arquidefensora do status quo. Longe de se sentir transtornada pela presença da igreja, a estrutura do poder da comunidade normal é confortada pela sanção silenciosa – e com frequência sonora – da igreja das coisas tais como são.

Mas o julgamento de Deus pesa sobre a igreja como nunca pesou. Se a igreja atual não recuperar o espírito de sacrifício da igreja primitiva, perderá sua autenticidade, será privada da lealdade de milhões e será descartada como um clube social irrelevante com nenhum significado para o século XX. Todos os dias, encontro pessoas jovens cuja decepção com a igreja tornou-se uma repugnância absoluta.

Talvez tenha sido mais uma vez otimista demais. Estará a religião organizada ligada inextricavelmente demais ao status quo para salvar o país e o mundo? Talvez deva dirigir minha fé à igreja interior, espiritual, a igreja dentro da igreja, como a verdadeira ekklesia e a esperança do mundo. Mas, de novo, sou grato a Deus por algumas almas nobres das fileiras da igreja organizada terem rompido as correntes paralisantes do conformismo e unido-se a nós como parceiros ativos na luta pela liberdade. Eles abandonaram suas congregações seguras e percorreram as ruas de Albany, Geórgia, conosco. Desceram as rodovias do sul em viagens tortuosas pela liberdade. Sim, foram para a cadeia conosco. Alguns foram expulsos de suas igrejas, perderam o apoio de seus bispos e colegas sacerdotes. Mas agiram com a fé de que o bem derrotado é mais forte do que o mal triunfante. Sua testemunha tem sido o sal espiritual que tem preservado o verdadeiro significado do evangelho nesses tempos turbulentos. Eles cavaram um túnel de esperança através da montanha negra da decepção. Espero que a igreja como um todo enfrente o desafio nessa hora decisiva. Mas mesmo que a igreja não venha ajudar a justiça, não perco a esperança no futuro. Não tenho medo a respeito do resultado de nossa luta em Birmingham, mesmo que nossas razões sejam no momento mal compreendidas. Alcançaremos a meta da liberdade em Birmingham e no mundo inteiro, porque a meta dos Estados Unidos é a liberdade. Não importa se estamos ofendidos e escarnecidos, nosso destino está ligado ao destino dos Estados Unidos. Antes de os peregrinos desembarcarem em Plymouth, estávamos aqui. Antes de a pena de Jefferson desenhar as palavras majestosas da Declaração de Independência através das páginas da história, estávamos aqui. Por mais de dois séculos, nossos antepassados trabalharam nesse país sem receber salários; eles colheram o algodão; eles construíram as casas de seus senhores enquanto sofriam injustiças crassas e humilhações vergonhosas – e, no entanto, com uma vitalidade sem fim, continuaram a prosperar e a desenvolver-se. Se as crueldades inenarráveis da escravidão não puderam parar-nos, a oposição que enfrentamos agora certamente fracassará. Ganharemos nossa liberdade porque a herança sagrada de nosso país e a eterna vontade de Deus estão incorporadas nas nossas sonoras exigências. Antes de encerrar, sinto-me impelido a mencionar outro ponto em sua declaração que me perturbou profundamente. Vocês calorosamente elogiaram a força policial de Birmingham por manter a “ordem” e “impedir a violência”. Duvido que teriam elogiado tão calorosamente a força policial se tivessem visto seus cães afundando seus dentes em negros desarmados, pacíficos. Duvido que teriam elogiado tão rapidamente os policiais se fossem observar seu tratamento horrível e desumano dos negros aqui na prisão municipal; se fossem vê-los empurrar e amaldiçoar velhas mulheres negras e jovens meninas negras; se fossem vê-los estapear e chutar velhos homens negros e jovens meninos; se fossem observá-los, como fizeram em duas ocasiões, negar-nos comida porque queríamos cantar nossa oração juntos. Não posso acompanhá-los no seu louvor ao departamento de polícia de Birmingham.

É verdade que a polícia demonstrou um nível de disciplina ao lidar com os manifestantes. Nesse sentido, eles se conduziram um tanto “pacificamente” em público. Mas com que propósito? Para preservar o sistema maligno da segregação. Ao longo dos últimos anos, continuamente preguei que o pacifismo exige que os meios que usamos devem ser tão puros quanto os fins que buscamos. Tentei deixar claro que é errado usar meios imorais para alcançar fins morais. Mas agora tenho de afirmar que isso é tão errado, ou talvez ainda mais errado, quanto usar meios morais para preservar fins imorais. Talvez o Sr. Connor e seus policiais tenham sido um tanto pacíficos em público, como foi o coronel Pritchett em Albany, Geórgia, mas eles usaram os meios morais do pacifismo para manter o fim imoral da injustiça racial. Como T. S. Eliot disse: “A última tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.”

Gostaria que vocês tivessem louvado os sit-inners e manifestantes negros de Birmingham pela sua coragem sublime, sua disposição para sofrer e sua disciplina incrível em meio a uma grande provocação. Um dia, o sul reconhecerá seus verdadeiros heróis. Eles serão os James Merediths, com o nobre senso de justiça que lhes permite enfrentar bandos zombeteiros e hostis, e com a solidão agonizante que caracteriza a vida do pioneiro. Eles serão as velhas, oprimidas, castigadas mulheres negras, simbolizadas em uma velha mulher de setenta e dois anos de idade de Montgomery, Alabama, que se ergueu com um senso de dignidade e com seus iguais decidiu não viajar em ônibus segregacionistas, e que respondeu com profundidade agramatical a alguém que lhe indagou sobre seu cansaço: “Meus pé está cansado, mas minha alma está em paz.” Eles serão os estudantes colegiais e universitários, os jovens sacerdotes do evangelho e uma multidão de seus pais, corajosa e pacificamente sentando-se em aparadores e dispostos a ir para cadeia por amor à consciência. Um dia, o sul saberá que quando esses filhos deserdados de Deus sentaram-se em aparadores, estavam na verdade fazendo jus ao que há de melhor no sonho americano e o que há de mais sagrado nos valores de nossa herança judaico-cristã, desse modo trazendo nosso país de volta àqueles grandes poços de democracia que foram cavados em profundidade pelos pais fundadores na sua formulação da Constituição e da Declaração de Independência.

Nunca escrevi uma carta tão longa. Temo que seja longa demais para tomar seu tempo precioso. Posso lhes garantir que teria sido muito menor se a tivesse escrito em uma mesa confortável, mas o que mais se pode fazer quando se está sozinho em um cela apertada a não ser escrever longas cartas, pensar longos pensamentos e rezar longas orações?

Se disse algo nessa carta que exagera os fatos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os fatos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que essa carta encontre-os fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança em que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão dissipe-se das nossas comunidades cheias de medo, e que em um amanhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.

16 de abril de 1963.

Fonte: http://www.reparacao.salvador.ba.gov.br
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